O PAPA E A BRUXA: Hugo Possolo definitivo

Nos últimos dias voltei ao teatro para assistir pela segunda vez, em uma semana, a mesma montagem. Vi ao lado de algumas pessoas e, ao fim, dei-me conta de tantas outras que mereceriam estar lá. Quantas vezes fiz isso? Poucas, ou quase nunca. Nada é mais incomum em mim que a vontade incontrolável do retorno. Porque acredito estar na experiência do momento o encontro com o teatro. Tudo se dá na relação em que feito o público me disponibilizo ao diálogo com o artista. E, ainda que apaixonado, o contato me basta pelo veio único e preenche, por maiores que sejam as identificações alcançadas. Sendo assim, a incontrolável vontade do retorno revelou-se um questionamento: o que ali me transtornara a ponto de querer mais?
A peça em questão é O Papa e a Bruxa de Dario Fo, com tradução de Luca Baldovino e adaptação e direção de Hugo Possolo. A relação de poder eclesiástico é colocada à prova no instante em que o pontífice vivencia a estrutura mais marginal da sociedade.
Que a dramaturgia de Fo é um degrau acima da comum, sabemos. Há na estrutura de seus textos a perspicácia de quem conhece os dois lados: a técnica que torna a palavra instrumento cênico e o patético que constitui o mais humano em nós. Entre a sabedoria (em seu sentido ordinário do possuir o saber) e a ousadia de discursos ousados, Fo genializa a comédia no melhor sentido da palavra, oferecendo ao espectador a mais profunda reflexão sobre si mesmo, a sociedade e as estruturas de poder, sejam estas econômicas ou religiosas. Em O Papa e a Bruxa, a reunião das duas esferas - poder e religião - ri da fé como é consolidada em nossas carências, em nossas necessidades de pertencer a uma história maior. Nada mais patético que a busca pela sobrevida, pela existência paradisíaca, como se dar continuidade à existência fosse suficiente para nos traduzir mais próximos ao humano. Nada mais palhaço que descobrir no próprio homem a falência de sua humanidade.
E é aí que a montagem dos Parlapatões vence a comédia e se faz diálogo. Hugo Possolo descostura as dobras frágeis do riso, capazes de levar o espectador a compreender a si mesmo pelo ridículo, e faz, de maneira eficaz, uma provocação benéfica ao bom senso e aos nossos valores. Poucas vezes assistimos comediantes que utilizam o riso como exposição do próprio espectador. E esta é a vantagem de Hugo ser, antes de qualquer coisa, palhaço. Daqueles que não precisam mais de estereótipos históricos ou narizes vermelhos para nos conduzir ao picadeiro.
Sem sombra de dúvida, O Papa e a Bruxa, e precisamente o Papa de Hugo Possolo, é um de seus melhores trabalhos. Maduro, consistente, eficiente. Daqueles que, antes de ser ator, é artista e faz de sua arte força de ação para elevar o trabalho ao patamar de discurso. Discurso esse que se manifesta amplificado na capacidade de Hugo em compreender as entrelinhas, os subtextos, dar vazão aos timbres e olhares.
O Papa e a Bruxa resolve a cena cômica do instante e serve de modelo àqueles futuros profissionais do humor. São 18 anos de Parlapatões. E a maturidade chega em formato definitivo. Não gosto de comédia, insisto. Mas aprendi a rir de mim mesmo e me olhar no espelho um pouco mais envergonhado.
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