Antro Particular

16 outubro 2007

DEDOS AMARELOS E UM OLHO DE CADA COR

Meu primeiro encontro com ele ocorrera por motivo de sua visita as instalações e reformas da Galeria Olido. Entre sete e oito da noite, no térreo do edifício à rua São João, descemos eu e o então Secretário da Cultura, Celso Frateschi, para recebê-lo. Celso iria encontrar um amigo. Eu, ansioso, ali disponível ao que fosse preciso aos dois. Ansioso sim, afinal era ninguém menos que Paulo Autran. O reconhecimento de longe, a aproximação, e enquanto os dois se abraçavam a inquietante dúvida: como se aperta a mão da história? Foi Paulo Autran quem resolvera o impasse. “Meu jovem, você faria um favor? Pode comprar um maço de cigarros para mim?”. A mão que trazia a nota de 50 era a mesma a segurar um cigarro já depois da metade. O bolso de qual saíra era o mesmo onde um maço ainda novo acomodava-se.

Meu último encontro com ele ocorrera por motivo de sua ida aos espetáculos Terra em Trânsito / Rainha Mentira. Entre oito e nove da noite, no saguão do Teatro Anchieta, vejo-o entregar o ingresso e corro para avisar Gerald que temos visita. A apresentação é dedicada a Paulo. Aplausos do público, dos artistas. Descemos do palco, eu e Gerald. Este iria reencontrar um amigo. Eu, disponível ao que fosse preciso aos dois. Já não havia tanta ansiedade. Do primeiro encontro a este, muitos outros momentos ocorreram nesses dois anos. Seu rosto mais envelhecido, o corpo mais cansado. A aproximação entre tantas outras pessoas, enquanto os dois se abraçavam. E novamente a inquietante dúvida: como se revela à percepção da história? Foi Paulo Autran quem resolvera o impasse. “Não tenho onde apagar meu cigarro”, “pode deixá-lo comigo, faço isso ao senhor”, disse-lhe. “Obrigado, meu jovem”. A mão que apertara a minha em gratidão era a mesma que segurava um cigarro já preste a queimar o filtro. No bolso da camisa, sobrevivente ao vício, um maço aberto, desfalcado dos seus, acomodava-se.

Entre minha entrega e a retirada de um cigarro, Paulo Autran continuou andarilho dos palcos. Com sua dificuldade visível frente a idade, mas com o desejo iniciante de um jovem afoito pelo fazer.

Agora tudo chega ao fim. Os noticiários com suas lamentações estratégicas, aproveitando da morte para construir uma comoção, enquanto artistas de todos os calibres puxam discursos corretos e pseudo-improvisados sobre as qualidades, a saudade e a vida de Paulo Autran. Prefiro esquecer a todo falatório das estrelas e o narcisismo neurótico de não deixar as câmeras e refletores em paz. Fico com as palavras de Elias Andreato: “Ele viveu uma vida magnífica, e tudo bem”. Fico com a homenagem dos Satyros, Guzik, Ivam, ignorada pela mídia televisiva, porém honesta em sua devoção e suas bexigas e rosas brancas a povoar a Praça Roosevelt.

Ontem, entre sete e oito da manhã, na tenda do Dramamix, no Satyrianas, Gabriela Rosas preparava-se para assumir a cena pelo texto de Priscila Nicolielo, com direção minha. O público do lado de fora, refletores rearranjados às necessidades, Gabi sozinha no palco. O silêncio final da preparação. E o cair, dentre nós, de uma das brancas bexigas perdida no teto da tenda. Uma das bexigas de Paulo. Como se nos dissesse: “Agora é com vocês. Sigam em frente. Fiz minha parte e vivi uma vida magnífica”.

A bexiga quicando no palco e o cheiro de cigarro impregnado no ar. A apresentação foi linda...

Arte gráfica: Patrícia Cividanes.

6 Comments:

  • Foi meu último encontro com ele também.
    E uma interação mínima. apenas um olhar.
    talvez ele esperasse que eu dissesse "Paulo Autram!", como a maioria, mas eu não disse nada. baixei os olhos e passei ao seu lado...

    By Blogger thais_ampr, at 1:25 AM  

  • Belo texto, Ruy.
    Um abraço,

    Dani.

    By Anonymous Anônimo, at 1:55 AM  

  • É, Ruy. Vida linda.
    Paulo é uma pessoa cardeal na minha vida - me deu meu primeiro papel importante, fui sua filha em Lear, ele me aconselhou e deu broncas até o fim da vida. O exemplo, o amigo, o artista, o estilo de vida dele que não sabemos se nós, pessoas de teatro que fazemos carreira agora, vamos conseguir acompanhar. Sabe lá o que é fazer teatro com uma kombi nos idos do tbc? ANTES de existir a globo? Quem me dera ter convivido mais do que os 16 anos de Paulo que tive. Espero ainda deixar aquele velho de um olho verde e o outro amarelo orgulhoso. Obrigada.
    bjs
    Rachel Ripani

    By Anonymous Rachel Ripani, at 1:49 PM  

  • Obrigada, Ruy,pelo belíssimo texto.
    Maria Lindgren

    By Anonymous Anônimo, at 2:36 PM  

  • Como todas boas lembranças ... Não poderia ter sido mas lírico seu texto.
    Abração

    By Anonymous rogério, at 2:39 PM  

  • Ah, Ruy como sua sensibilidade me comove. O texto é lindo. Bjs.
    Mamy

    By Blogger MHelena, at 10:03 PM  

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