Antro Particular

24 julho 2008

ENTULHO por Luiza Novaes

Será que As Sereias cantaram?

Esta época, que mostra a si própria o seu tempo como sendo essencialmente o regresso precipitado de múltiplas festividades, é igualmente uma época sem festa. O que era, no tempo cíclico, o momento da participação de uma comunidade no dispêndio luxuoso da vida, é impossível para a sociedade sem comunidade e sem luxo. Quando as suas pseudofestas vulgarizadas, paródias do diálogo e do dom excitam a um excedente de dispêndio econômico, elas não trazem senão a decepção sempre compensada pela promessa de uma nova decepção. O tempo da sobrevivência moderna deve, no espetáculo, gabar-se tanto mais alto quanto mais o seu valor de uso se reduziu. A realidade do tempo foi substituída pela publicidade do tempo.
Guy Debord - Sociedade do Espetáculo


Uma das dúvidas mais existenciais do mundo pede uma resposta concreta: sim ou não. Corpo e Cabeça, Razão e Emoção.

Em uma de suas aventuras Ulisses na Odisséia conta que ao navegar pelos Mares e passar próximo às Sereias todos os marinheiros prevenidos pelo capitão da Nau taparam os ouvidos com cera para não ouvir o canto, como estratégia tática, basicamente.

Ora, o sagaz Ulisses, astuto e desejoso de ouvir o belo canto das sereias, decidiu amarrar-se ao mastro para não ter a atitude de se deixar levar pela beleza estética e sonora da brincadeira. E ele amarrado ao mastro ouviu o canto das sereias, mas como estava amarrado, não se permitiu ser tomado pelo impulso de ir, lugar onde nenhum outro havia voltado.

Impasse, Kafka escreve um conto sobre as sereias e Ulisses, e a discussão baseia-se no silêncio, o mesmo impulso que provoca o canto pode provocar o silêncio.

Qual a força criativa necessária para o canto da Sereia que não a necessidade de perder-se no mais doce e estético que o corpo pode provocar, porém se o humano não deseja perder-se nada melhor do que saborear a derrota, Ulisses foi condenado ao silêncio por não querer sentir, dessa forma, via a beleza, os cabelos esvoaçando de maneira horripilante, mas nada de som.

A proximidade com o sentir, e a possibilidade ou não de saber o que fazer, o obrigou inclusive a questionar sua existência, compreenda, não há nada pior do que não querer sentir, astuto ele se aprisionar com cordas, porém surdo ele de não entender propósitos.

O silêncio reinou.

Pela primeira vez na vida não acredito que minha proposta de análise isentará sentimentos e inclusive de maneira visceral, até por que não acho que seja possível isentar-se de maneira absoluta nem ao menos ideal.

Ódio à peça foi o primeiro necessário sentimento, o que estava eu lá fazendo, muitas vezes a cabeça se movia com intenção de fugir às repetições de movimentos, que a princípio me pareciam extremamente cansativos.

Pensei em quanto assistia: o que faço aqui? Que tipo de proposta sobre a discussão da mercadoria poderia acrescentar algo que 200 séculos, de marxistas e românticos em geral não haveriam trabalhado, e todo mais tipo de preconceito básico de um bom acadêmico da ciência social.

Porém quando dormimos nossos monstros retornam. Quando acordei foi um chute no estômago, a questão me perturbava sobre a impossibilidade real que temos de sentir. A falta de fala repetia para mim o vazio daquilo (coisa objeto) que havia deixado de ser coisa e havia se transformado em sentimento coisificado. Ultrapassava até mesmo a mesa que dançava de Marx, para tornarmos-nos pessoas incapazes de definitivamente sentir e ser qualquer coisa significativa (explique: com significado).

Não consigo explicar o choro emocional, eu estava vazia sozinha e com dinheiro para pagar contas e viagens planejadas, e com documentos desorganizados, roupas entulhadas, livros empilhados e vazia, completamente sozinha.

Daí surge para mim o significado de reificação, como pessoas coisificadas incapazes de sentir o próprio corpo, ou reagir a necessidades, e que não haja simplesmente com impulsos mecânicos como abrir a porta, ou lavar o rosto, em nome de seguir o mesmo tipo de rotina incansável e irreal. Afinal para que, por que fazemos tudo isso, em nome do que?

Para que nossas sacolas? Aonde vamos? Para que também organizá-las, todo o sentido de causa e conseqüência torna-se o nada, o mesmo que sinto no momento em que as teclas tocam em meu dedo.

Porque não é senão como categoria universal do ser social total que a mercadoria pode ser compreendida na sua essência autêntica. Não é senão neste contexto que a reificação surgida da relação mercantil adquire uma significação decisiva, tanto pela evolução objetiva da sociedade como pela atitude dos homens em relação a ela, para a submissão da sua consciência às formas nas quais esta reificação se exprime... Esta submissão acresce-se ainda do fato de quanto mais a racionalização e a mecanização do processo de trabalho aumentam, mais a atividade do trabalhador perde o seu caráter de atividade, para se tornar uma atitude contemplativa.

Lukács - História e consciência de classe

Porém além do lixo humano, há o texto, primeira crítica, esse era um texto teatral? Perguntava-me quantas páginas ele possui etc.

Não consigo retornar a uma sequer palavra significativa no texto, mas, a repetição dele ou das marcas de lojas citadas, determina na repetição da própria idéia de prazer e produção dele a incansável improbabilidade de sua existência.Estou cansada agora, percebo que superar obstáculos de dominação de nossa natureza não é fácil, pobre Ulisses, na tentativa de enganar Sereias se engana também. Nossa natureza ainda é animal, mesmo que...

Não estou disposta a sacrificar-me de minhas pulsões como Ulisses. O fez em nome da Civilização. Ainda acredito que o esclarecimento é tão mágico quanto à ficção. Ainda pertenço à classe de pessoas que compreende o mundo pela janela da mitologia, e esta possível de não ser menor que a ciência ou o saber, mas somente outra janela. Não é nem causa nem conseqüência também como alguns a pensam, quase como uma linha evolutiva, mas apenas outra forma.

Cego são aqueles que não ouvem o chamado dos guardiões, nossa porta ainda aguarda por batermos em seu casco. Silêncio.

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