Antro Particular

06 dezembro 2008

UMA PILHA DE PRATOS NA COZINHA: O som da chuva em nossos silêncios

A partir de um certo instante, sobrevoa os atores uma fina nuvem formada pelos cigarros fumados em cena e que, dado o desenho da sala do Satyros 1, lentamente avança em direção ao público. E o atinge, quase ao fim do espetáculo, incluindo-o na atmosfera da narrativa, enquanto um silencioso e longo abraço é construído no fundo do palco. Dos copos de conhaque e latas de cerveja surgidos cúmplices sobre a mesa de madeira gasta, restam a ausência do hálito, da palavra explícita ao sussurrar desculpas, ao aceitar a vida, após tantas falas cruzadas de destruição do outro e buscas de compreensão sobre si mesmo.

Em Uma Pilha de Pratos na Cozinha, Mário Bortolotto finaliza a trajetória de toda uma geração em encontrar um destino. Ou um sentido... Os jovens de ontem caminharam sem perspectivas, expostos à história de uma geração anterior que se autodenominava atitude. E na ausência de qualquer ideal, na solidão do pertencer ao meio do caminho, sem horizontes ou curvas possíveis, o dramaturgo traduz a impossibilidade em personagens à espera de uma morte.

Entretanto, não estão nos ótimos diálogos os gritos mais preciosos, mas naquilo que não é dito e que não poderá mais ser revelado. Feito o pedido de socorro, o acolher do inevitável, em belíssima interpretação de Paula Cohen.

Perdemos o futuro, restando-nos apenas o passado. O que no caso dos personagens de Uma Pilha de Pratos... serve apenas para recordar-lhes suas incapacidades. Assim, a peça metaforiza sobre o próprio sentido do existir, expondo o tempo como inimigo inatingível.

E vai além ao revelar não ser o tempo em si nosso adversário maior, e sim nós mesmos. Ao perdermos o contato com o próprio presente, sobrara o passado insolúvel e imutável como inevitável companheiro. Recordações, memórias e sonhos se distanciam enquanto, paradoxalmente, colam-se em nossa existência tornando-nos uma opaca imagem do que fomos misturada ao que não seremos, obrigando-nos a construir outro passado no devir. O futuro, então, torna-se passado na forma de desejo. Desejo de dar ao todo, um dia, outro sentido, outro argumento à existência, outra interpretação que justifique o antes, levando-o a nos explicar diferentemente melhor.

Portanto, não é o tempo o mais cruel antagonista, e sim nossa própria falência em sermos.

É pela boca de Paula Cohen que entendemos que passamos a vida sem notá-la e que a morte deve ser assistida lúcida, em plenitude, pois só se morre uma vez. Sem bebedeiras e quaisquer entorpecimentos seremos obrigados a conviver com o inevitável e poder dar-lhe sentido, para nele buscarmos o nosso próprio. Olhar a morte nos olhos. Ou a vida. O amanhã. Ou o agora. Bortolotto ajusta um texto à beira da janela, tanto quanto seu personagem enfrenta o parapeito do apartamento, e cria uma trama onde a culpa se confronta à piedade, e o cinismo é instrumento de distanciamento e cegueira.

A pilha de pratos na pia cresce a medida em que desistimos de dar sentido ao nosso próprio existir. Os cinzeiros se multiplicam quantificando em restos o tempo de nossas ausências. A poltrona rasgada ao uso, a porta sem tranca, o tapete envelhecido e gasto, recordando a falta de importâncias maiores. O espetáculo silencia a vontade de fala, exige-nos o reencontro, o abraço mudo. E não é a toa que a chuva surge no meio do espetáculo. Como que para nos avisar de que para ouvir os trovões é preciso estar vivo...

Mas somos apenas espectadores de um circo exibicionista de personagens fictícios, então saímos do teatro abandonando artistas e poltronas feitos uma inócua neblina cinza a vagar sem sentido e valor, até, simplesmente, sumir misturada ao vento, enquanto esquecemos de que nuvens não podem ser abraçadas.

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