Antro Particular

22 setembro 2010

O inverno da luz vermelha

Aspecto próprio do mundo civilizado, a solidão se desenvolve desde sempre como fruto inerente ao homem urbano. O perder-se dentre as artérias das cidades, que outrora adquiria valores romantizados pela figura do flâuner, a boemia do início do século passado desprovida de companhias outras que não a poesia e a arte, o enclausuramento ideológico pós-guerras... Esses e tantos outros aspectos trouxeram à literatura e ao homem a compreensão de ser a solidão algo maior do que o existir só, mas sua utilização como discurso e problematização sobre a realidade a partir de uma observação crítica.

Hoje, a solidão atua em níveis mais descontrolados pelo sujeito, que ora se vê sozinho ora se prefere assim. A troca da relação direta pela virtualização determina ainda mais perigos, sobretudo o da ilusão de ser possível reverter conscientemente o isolamento, afinal, basta ligar o computador para se encontrar ou ser encontrado e deixar, assim, de se estar só. Infelizmente, não. A ilusão funciona às avessas. A solidão funda a condição do homem contemporâneo e determina à sua subjetividade um existir limitado a ela.

A ilusão de que optamos pela solidão traduz-se na incapacidade de revertê-la. Usamos da artificialidade do autoconvencimento para acomodar-se e fingir desconhecer a impossibilidade de reverter nosso isolamento. E construímos nossas personas limitadas a uma camada de apresentação, como se fosse verdade ser apenas o que se revela ao outro e do outro o que enxergamos tão claramente. Esse achatamento sobre nossa identidade reflete mais do que sua banalização, traduz, sobretudo, a distância em dialogarmos com as multiplicidades.

Sobre a construção de identidades isoladas a superficialidade de uma camada representativa, reduzindo o sujeito ao imediatismo de sua leitura, que Adam Rapp elabora suas personagens em “O Inverno da Luz Vermelha”. Isolados neles mesmos, os personagens convivem à solidão de suas próprias vidas incapazes de chegar ao outro. A distância, formalizada sob a subjetividade de uma geração acostumada a ser apenas assim, revela o sofrimento daqueles que não encontram outras maneiras de existir. A prostituta (Marjorie Estiano) cuja identidade trai a própria ao se vender personagem da mulher qual desejaria ser, o músico (André Frateschi) que impõe a destruição sobre qualquer envolvimento que lhe obrigue a se revelar diferente ao estereótipo que construiu de si, o escritor (Rafael Primot) em fuga de si mesmo, que encontra apenas em sua história os artifícios para sua escrita.

“O Inverno da Luz Vermelha” cruelmente explode a condição solitária do homem naquilo que mais reconhecemos como contrário a ela: o amar. O encontro entre as pessoas leva-as ao ápice da condição de solitárias. Não é possível se aterem a qualquer sentido de encontro, pois não cabe mais ao homem o partilhamento sequer de seus sonhos e desejos. A peça invade nossos segredos e aponta o dedo sobre os esconderijos onde guardamos nossos verdadeiros eus.

A coesão dos atores faz do que poderia ser um argumento juvenil e pessimista um jogo de representações, de capacidades e entregar valorosas. São jovens talentosos em busca de algo que reclame ao mundo suas existências, e a escolha de um texto como de Rapp dialoga com coragem e generosidade as incertezas dos discursos. Um trio que se mostra disposto a romper a solidão fácil do teatro burguês e sua aceitação prévia, para, com lágrimas aos olhos, ao fim, se deparar ao público. Marjorie, Rafael e André, trouxeram de si os argumentos que nos prendem por quase duas horas nas poltronas, reclamando por um pouco mais.

Trabalho de uma eficiente direção que igualmente incomoda suas idiossincrasias e deixa serem os atores a estrela do espetáculo. Monique Gardenberg, como já revelou em seus trabalhos anteriores, sabe construir a cena e nela impor sua marca. Desta vez, a diretora doa sua criação para que algo mais possa surgir, permitindo ao teatro, como raramente é feito, o argumento para nos aproximar o humano. Se Rapp enxerga na solidão do homem sua condição existencial, Monique e o elenco fizeram da manifestação teatral a contramão desse argumento. É possível sim reencontrar-se e estar junto ao outro, ainda que seja por duas horas, separados em poltronas vermelhas. Vermelhas, como curiosamente, já nos indicava o título do espetáculo, enquanto o inverno se revela no interior da solidão de cada espectador.

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