Antro Particular

28 dezembro 2007

CARTAS QUE NÃO ESCREVI EM 2007


I

Caro Sr. Presidente,

Olhando para trás é quase inacreditável afirmar que 2007 teve apenas 365 dias. Entre discursos sem tempo para acompanhar, entrevistas não assistidas, fica a sensação do ano não ter sido dos melhores também para o senhor, ainda que os números demonstrem outra coisa. Mas números são números e sabemos bem disso. Justo, não é mesmo? Afinal, como todo bom brasileiro, a vida não está fácil.

A perda da CPMF deve tê-lo abalado, apesar das entrevistas nas quais afirma não ter o fato lhe tirado o sono. O que de certa forma me tranqüiliza, pois um presidente descansado e bem-disposto é tudo o que mais precisamos para o próximo ano.

Eu tive lá minhas insônias. Não é fácil quando não se pode comandar o destino, ficando à mercê de interesses sabe-se lá de quem e pra quê. Mas, hoje, dormirei, sim. Sem remorso. Consciente de ter feito o possível, de ter passado um ano bom.

Não pretendo viajar. E o senhor, vai mesmo para o Rio? Bom, isso não é da minha conta, mas, ainda correndo o risco de me intrometer demais, acho melhor o senhor não ir de avião. As coisas continuam desarranjadas. E nunca se sabe quando um outro pode cair, derrapar, não frear... Use um bom carro, um desses novos modelos. Ou então um mais antiguinho, daqueles do tempo de São Bernardo. Na volta, se não for pedir muito, o senhor poderia me trazer uma cópia dos filmes em lançamento por lá? Não pagar o frete já é uma ótima economia...

Gostei dessa idéia de não permitir mais o uso da língua estrangeira em estabelecimento comercial. Imagino que sinta a mesma frustração minha afinal nem todos falam outro idioma, e nem por isso somos menos que... que... o resto do mundo. Só acho confuso, então, quando a questão é o português. O de Portugal é estrangeiro ou não? Juntar tudo não é meio esquisito? Gosto da maneira como nossa língua se formula. Gosto de falar e escrever do nosso jeito. Eu sei, é um pouco complicada, o senhor tem razão. Vejo o senhor se atrapalhar e muitas vezes querer dizer uma coisa e sair outra. Mas essa é a graça da nossa língua! Há 500 anos falamos uns com os outros sem conseguirmos nos entender. Por isso acho bonito e até me emociono quando ouço o senhor se enrolar.

Um ano difícil, não é? O coringão na segunda divisão, as reformas que não foram feitas... E, em ambos os casos, é curioso perceber que a maior oposição era “si mesmo”! Descompassos de meio de campeonato. Vamos em frente! E se o timão foi pra segunda, o senhor vai pro terceiro. Tenho fé! 2010 já está no papo... Só é preciso acertar o meio-de-campo, trocar os atacantes e, quem sabe, arranjar um juiz camarada.

E nem tudo foi tão ruim assim. Pera lá! O Renan Calheiros foi uma vitória homérica. Tanto se quis, e ele vem se livrando caso a caso. Como o senhor desejou. Desculpe. Como o governo desejou... Essas coisas de “ser” e “estar” me confundem um pouco...

Mudando de assunto... Bonito o paletó enviado pelo Evo Morales, heim? Elegante. Gostei. Poxa, queria ter amigos assim também. Roupa importada...

Bom, presidente, 2008 está aí. Agora é com o senhor. Eu vou no ritmo que consigo e no que me permitem. Sempre esperançoso de serem minhas neuroses apenas neuroses. Só um último conselho, porém: aquela cachacinha de antigamente... fico triste que tenha parado. Havia certo destempero antes que era bem interessante.


II

Caro, Ivo Mesquita

Não nos conhecemos. Ou melhor, eu o conheço, mas o senhor certamente não tem a menor idéia de quem sou. Talvez porque eu tenha abandonado as artes plásticas logo no fim da faculdade e, portanto, nunca me dedicara a pertencer a esse universo. Sim, provavelmente seja por isso mesmo.

Lá por meados de 2000, ainda na FAAP, tudo estava muito chato. As galerias, os museus, as escolas, os professores... Nossa, quanta mesmice, quanto medo de enfrentar as questões reais! Por isso segui outros caminhos. Cansavam-me os discursos imbecilizantes sobre nada, ou quando muito, quase nada. E quase dez anos depois, como ainda estão tão vivos esses blá-blá-blás! Desliguei-me e pronto. O que mais me incomoda, ainda hoje, nas artes plásticas brasileiras, são os aspectos provincianos de querer se adequar aos movimentos internacionais. Perdemos nossa identidade. Não avançamos num processo amplo de construção simbólica. E como isso tem se mostrado evidente nas últimas bienais. Chega a assustar.

Quase me surraram, certa vez, quando disse que o artista brasileiro não tem o que dizer e, quando o tem, não sabe como.

Antes ia a cada edição das bienais seis, sete vezes, e passava dias inteiros a cada visita. Ultimamente, duas bastam e me ocupam poucas horas. Sempre me indagando: “ninguém vai mudar isso?”, “ninguém vai ter coragem de fazer alguma coisa?”. Não sou um dos neurastênicos em busca de novidades. Longe disso. Mas algumas mudanças, sobretudo de comportamento e ideologia, seriam de bom grado.

E aí vem o senhor! Claro, conheço o teu trabalho. Presenciei muita coisa. Mas como me surpreendeu tua postura! Como me estimulei a voltar para as artes visuais! Não, não pretendo criar nada, nem isso é um pedido de ajuda. Meu entusiasmo se dá na vontade do convívio com idéias. Como a primeira vez em que vi um quadro de Mondrian (e incompreensivelmente chorei) ou os parangolés de Hélio (e compreensivelmente sorri), os objetos de Beuys, as esculturas de Bourgeois, uma instalação de Peter Fischili, as performances de Marina, o cinema de Matthew Barney. Aos poucos fui elegendo aqueles cuja tradução estética dialogava com minha própria percepção. E, até então, poucos curadores caberiam em minhas mais otimistas listas...

Agora, deixar todo um andar do pavilhão vazio? Preencher outro apenas por livros e referências? Um procissão do Zé Celso?

Não sou mais tão novo, tenho meus 34, contudo, poucos para ter presenciado a sala vazia de Yves Klein, o silêncio do piano de John Cage e o desenho do Kooning apagado por Rauscenberg. Curioso, então, confirmo minha solidária presença para preencher a bienal, para participar desse grito tresloucado de intensa ousadia e ironia. Vou contigo. Na esperança de ver surgir em meio aos silêncios do vazio, das páginas e do acúmulo das multidões um movimento outro que traduza particularidades de nosso tempo e conduza a arte brasileira ao que de mais importante já possuíra: verdade.

Em um país em que bispo faz greve de fome para tentar ser ouvido, congressistas paralisam os trabalhos por politicagens absurdas, mecenas são máscaras de bandidos e a cultura limita-se a entretenimento, nada mais próprio que determinar a um dos seus instrumentos de reconhecimento internacional um período de quarentena. Temo apenas que as artes brasileiras estejam entrando igualmente em uma, e que esta não se dê em dias, mas em anos...

Parabéns, senhor curador. E que um dia, Ivo, consiga, enfim, apertar-lhes as mãos e agradecer por me trazer de volta.


III

Ivam, querido, como está Nova Iorque? Não poderia deixar de te agradecer o convite para participar no Satyrianas. Belo evento. Tantos nomes, tantos artistas, todas as idades, desconhecidos ao lado de monstros consagrados. O que mais me alegra é saber haver sim quem enfrente os dilemas da submissão mercadológica. E vocês realmente foram além de qualquer delírio possível.

É um suspiro de alívio reconhecer ainda haver quem se incomode com o comodismo fácil e arrisque a cara num verdadeiro projeto de democratização de pensamentos. Artistas são aqueles cujo incômodo é transformado em ação e não simplesmente em discursos pontuais. Aprendo cada vez mais com tua inquietação.

Que 2008 inicie em forma de ventania, trazendo novidades e recheando a vida de surpresas e caminhos outros. Beijos aos satíricos e, em especial, a Guzik e você.


IV


Gerald, espero que esteja bem...


V

Tivemos uma briga horrível ontem. Horrível, porque, talvez, brigar com você seja sempre a mais profunda dor. Horrível, porque, talvez, quase nunca brigamos um com outro. Horrível, por eu estar errado e te fazer chorar.

Não cabem desculpas, não cabem arrependimentos simples e pontuais.

Você me prova todos os dias o quanto eu sou pequeno, o quanto você é especial em suportar minha pequenez. O quanto você é linda... Nas poucas sobrancelhas a se erguerem denunciando estar brava, nos lábios apertados enquanto escreve alguma coisa, no sorriso maroto quando está preparando uma surpresa, nas pintinhas em seu rosto que me vigiam todos os dias enquanto durmo. Parece que tudo sempre está perfeito, porque você é perfeita.

É difícil se declarar durante 13 anos sem se tornar repetitivo. Mas volto a dizer: é muito fácil se apaixonar por você. E eu te amo.

Te amo porque me entende, te amo porque sempre me perdoa antes que lhe peça, te amo porque me faz compreender a vida, te amo porque nosso amor se constrói a cada dia. E cada briga, cada pequeno gesto, em cada surpresa.

Hoje, a manhã de sol estava linda. Você na piscina brincando com a água, fazendo-se menina outra vez. Adoro tua felicidade. E nada é capaz de me deixar mais feliz que te ver feliz.

Perdoe minhas incapacidades que tanto te tiram o sorriso.

Mas eu te amo, Patrícia, eu sempre te amo.

2 Comments:

  • Tá frio aqui, Ruy. Passei a tarde com o Gerald, a Fabi e o Alberto. Fomos ao Brooklin e falamos de você, do nosso teatro, das Satyrianas. Você foi das coisas boas deste ano, tenha certeza. Grande abraço e 2008 vibrante, cheio de projetos realizados. Beijo e até o futuro.

    By Anonymous Ivam Cabral, at 12:45 AM  

  • Último dia de 2007... Acabo de acordar e te deixar dormir mais um pouco. Acabo de reler suas cartas... minha carta. E como responder a tudo isso? Estou tão feliz com nossa vida, nossa casa nova... tão feliz com/por você. Te amo como nunca! (como é possível, não é? 13 anos!!! Mas é...)
    Foi um ano árduo, penoso, cansativo. Nunca estive tão pessimista em relação ao nosso país, tão desanimada frente às pessoas. Sempre disse que o número 7 me dava sorte. "Mas 2007 é 9!". Verdade... e 2008 é 1. Recomeço. Então, vamos à ele!
    (gosto desta boba esperança de virada de ano...)
    Te amo, moreno...

    By Anonymous Patrícia Cividanes, at 12:44 PM  

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