Antro Particular

01 abril 2009

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Peças de Minas e São Paulo se destacam

Caderno G, jornal Gazeta do Povo.


Duas boas montagens de outros estados se fizeram notar em meio à baixa qualidade que prevalece no Fringe. Representante da produção mineira, que sobressaiu no Festival de Curitiba no ano passado, mas compareceu em menor número desta vez, o espetáculo Fala Comigo como a Chuva, dirigido por Cynthia Paulino, fez sua última apresentação ontem, no Teatro Cleon Jacques.

Samira Ávila (atriz proveniente do Espanca!) é a mulher, que aguarda aflita, em silêncio, no quarto. Luiz Arthur interpreta o homem, de volta após um sumiço, bêbado e parcialmente desmemoriado. À sua chegada, ela reage externando a frustração acumulada na espera, a frustração de uma vida inteira a dois.

A encenação do texto de Tennessee Williams constrói uma atmosfera lírica antirrealista para dar intensidade ao sentimento. Ao fundo, de uma reprodução da pintura Árvore da Vida, de Gustav Klimt, escorre água, a encharcar o chão e as roupas do casal. São lágrimas, mas também o alívio buscado por ela, que ameaça partir sozinha para um lugar onde chova e um dia seja possível olhar-se no espelho e perceber, só então, que se passaram 25 ou 50 anos.

Os atores se envolvem em uma coreografia em que mãos e corpos se entrelaçam em afeto e pequenas agressões, sintetizando a relação ambígua entre eles. É um amor que fere e acolhe, por isso mesmo, difícil de abandonar. As camadas de roupa que ela veste vão sendo tiradas à medida que consegue desprender-se, quase a ponto de ir embora, mas são vestidas novamente quando a intimidade a retém. A canção francesa ao fundo, a poça que cresce sob os pés deles e molha suas vestes, o chuveiro que abranda a angústia são símbolos em profusão entre os quais ganha força a imagem purificadora da água, a renová-los e afastar o fim.

Provocador
A tensão entre a ordem e a liberdade ganhou uma leitura provocadora na peça Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade, de Ruy Filho, encenador que trabalhou como assistente de direção de Gerald Thomas, de quem é discípulo confesso. Suas imagens fortes e a música onipresente, especialmente composta por Patrick Grant, do The Living Theater, impactaram a plateia da Casa Vermelha.

A imagem inicial fixa-se nas retinas: um homem cujo rosto está coberto por um capuz fino, que lhe esconde as feições e atrapalha a respiração, e o corpo, amarrado a largas tiras de tecido branco, que se esticam e o prendem às vigas.

A liberdade tolhida prosseguirá no violento jogo cênico de confronto entre torturador e torturado, aos tapas, socos e berros dados para enfraquecer a sensibilidade do jovem libertário e submetê-lo à ordem (ou sistema). Não conseguirá, embora arranque da vítima atitudes semelhantes às suas. Tampouco o preso será capaz de virar o jogo e cooptar o homem que o agride, apesar de nele plantar uma semente de questionamento contra as “estúpida” perfeição do estabelecido.

A dicotomia se perpetua, insolúvel, como se um lado dependesse do outro para existir. Mas as frases que ganham eco são as ditas pelo libertário, a exemplo de “deve ser desesperador só enxergar o que te mostram”. “Só é possível existir pela originalidade” é sua frase-síntese.

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