Antro Particular

27 setembro 2010

carta aberta aos urubus

Caros Urubus, perdoem por tratá-los de maneira tão incômoda e genérica, mas vocês têm nomes? Ouço daqui um, de lá outro, mas os nomes mesmos permanecem escondidos ou esquecidos de serem ditos. Aliás, vocês falam? Porque os vi tão quietos e acomodados em seus postes que os achei deprimidos. Não, isso não, por mais que quisessem me convencer de uma possível depressão, vocês não me pareciam verdadeiramente assim, foi mais força de expressão mesmo, melhor não confundirmos as coisas. Naquela noite, aquela em que tentaram resgatá-los de seus cativeiros, pareciam mais adaptados ao universo da arte do que eu. Por acaso vocês estudaram arte por aí? Não me lembro de circular por outros ambientes em que estivessem. Galerias, museus, exposições, nada mesmo. Mas é curioso como a sensação de lembrança surgia tão nitidamente apropriada. Não, talvez vocês sejam outros de uma classe de urubus que já devo ter cruzado por aí, em ambientes menos interessantes. Zoológico talvez? Não sei, acostumados demais ao caos, acho mais possíveis os montes de lixos ou pedaços de carniças em beiras de estradas. Que bom que vocês são três, e por serem quem são, tão dedicados a fazer dar certo, isso é muito até, assim vocês fazem companhia uns aos outros. A participação em uma instalação deve ser meio enfadonha e monótona. Entre uma música e outra, um olhar mais curioso e um inconformado, bem que vocês poderiam nos presentear com vôos e rasantes, raspar as asas nas telas enquanto nos hipnotizam com malabarismos e exibicionismos. Seria bonito de se ver de fora, sobretudo se isso viesse somado ao conceito da obra. Já pensaram? Serem a própria obra? Pra mim vocês já são. Uma metáfora triste de um país nebuloso, à beira de um colapso, segregado de seu futuro. É o que senti quando olharam para mim. Alias, àquele que me encarou de bico aberto, disposto a me confrontar, só um aviso: eu te respeito, sabia? Respeito por ser você parte de um discurso sensível, crítico, honesto e provocador. Por me sensibilizar, por me trazer reflexões, por espelhar minha vida em igual condição. Só que um dia você vai pra casa. E eu, faço o que, já que já estou em casa?

Pois é, urubus, aqui não é fácil. Proibi-se de mostrar, de ver, de dizer, de voar. Perto de vocês alguém teve outra sorte. Foi embora. Foi arrancado por uma tarja preta e escondido de apresentar suas cores. Coitado, já deve estar na Argentina de volta. Imagina a frustração de voltar sem nem mesmo ter chegado? Ninguém fez nada pra impedir isso, muito menos os que se arriscaram para libertar vocês. Esses, provavelmente, nem sabem do que estou lhes contando. Aquele retrato, sim era uma foto dupla de duas figuras que sobrevoam nossos destinos, foi-se sozinho, sem multidão. Que mundo estranho esse, não? Vocês aí, instalados, magnânimos, famosos. Enquanto os personagens daqueles retratos são quem parecem sedentos por carniça. É, amigos - posso chamá-los assim, não posso? É que o convívio com vocês me dá a sensação de certa intimidade –, do lado de cá da grade parece que as grades são mais perigosas. Não as vemos impedir os vôos mas, de alguma maneira, esmagam nossa capacidade em brilhar livres, nosso ir e vir, de imaginarmos.

Aqueles que se preocupam com vocês não são muito diferentes dos que se preocupam comigo. Imagina que se vocês saírem daí esses protetores e amantes da liberdade irão levá-los para uma jaula dez vezes menor e com uma dezena de outros para com quem a dividirem. Uma kitchenette na Água Funda, praticamente, ao invés da suíte Niemeyer do Ibirapuera e seu glamour histórico. Eu sei que isso é loucura, mas eles acham que vocês estarão melhor assim. Eu não posso fazer nada. Caramba, vocês acompanharam a confusão de perto, quem pode com eles? Eles não escutam, não pensam, só agem e agem e agem. Sim, eles acham que liberdade é isso. Gritam, destroem, picham. Hoje em dia a liberdade é palavra de ordem, seja lá o que se entenda por liberdade. Liberdade aos urubus! Liberdade aos ativistas. Liberdade aos pichadores. E cadê a porra da liberdade do retrato? Dane-se o retrato, é argentino. E por aqui ninguém gosta mesmo de argentino. Será que os salvadores sabem de onde vocês vieram? Melhor nem dizer. Há muito preconceito por aqui sobre essas regiões também.

Sabe o que foi mais estranho nisso tudo? Aquela multidão se divertindo e gritando pra soltarem o pichador e vocês como se fossem a mesma coisa. É engraçado, porque vocês não cometeram nenhum tipo de crime e acabam comparados ao mais patético e ingênuo dos idealistas. Eu acredito que sejam, porque idealista é todo aquele que possui um ideal, e eles tinham um, não tinham? Acho que sim, antes deles aparecerem, já devem ter soltados todos os animais dos zoológicos, os dos aquários, os cavalos e burricos explorados em mão de obra, as vaquinhas leiteiras, cães policiais. Mas esses ainda têm lá seus privilégios. Já pensou nos que vão direto para os frigoríficos? Pior, e os que são servidos aos deuses em terreiros de toda ordem? Que puta sorte vocês serem urubus, heim? Estão famosos e sem qualquer risco de virarem ensopado, capas de jornais, programas de televisão. Vocês estão com tudo. São os artistas da vez. Mas e o retrato, heim? Será que vocês, com toda essa influência na mídia, não conseguem trazê-lo de volta? É de tirar o sono saber que isso ainda acontece. E fiquem espertos, porque tem gente querendo tirar outros. Esse é o lado de cá da jaula. Tem urubu pra todo lado por aqui também. Tá bom, me desculpem, eu não quis ofender vocês.

Quando eu disse que tem por todos os lados é mais do que isso. Tem os que torcem pra tudo dar errado, tem os que fazem tudo dar errado. Nem isso vocês perceberam? Ora, espera um pouco, vocês precisam ser mais responsáveis, não esqueçam que agora vocês são ícones da nossa cultura, caramba. Vocês reinventaram o bbb, poxa! Ok, só toca a mesma coisa na instalação, não tem outras notícias, nem globonews ou cbn... Enfim, eu explico. Nós tivemos uma década de bienais cada vez piores, muitas por incompetência, poucas por desestrutura. Claro que isso é possível, na última estava praticamente vazia. Não vazia vazia. Tinha umas coisas aqui, outras lá, tinha até aula de dança pra idosos. Vocês podem parar de rir? Eu queria continuar... Queridos, isso não é engraçado, é desastroso, chega! Nessa década catastrófica que passou, os artistas simplesmente acharam melhor criar outra exposição paralela do que enfrentar o problema de frente. Mas até que foi bom, abriu um campo novo de debate, de experimentações, e esse universo paralelo agora tem vida própria, tem sua voz e tal. Apesar de ser curioso o fato de seguir o mesmo modelo que criticam. Nessa edição, depois de uma reestruturação gerencial, administrativa e o cacete, a bienal retomou seu caminho. Tá bacana, esforçada, tem bons trabalhos, tem discurso. Acho que é questão de manter e esperar nascerem os frutos. Até o ano que vem terá exposições. Coisas que nunca vieram, uma promessa bem audaciosa. Pois é, eu também acho que isso demonstra segurança dos investidores, gestão comprometida e capacidade de fruição de idéias, mas tem os urub..., tem uns que ficaram de fora e que se acostumaram, depois de uma década, a reclamar e xingar compulsivamente, e é isso que estão fazendo. Bom, vocês são racionais e conseguem enxergar logo que é preciso dar confiança ao renascimento da coisa pra que ela se firme e exploda em potência, mas nossos artistas não são assim, eles preferem destruir tudo outra vez, parar com tudo, jogar merda pra cima e... E o que, né? Qual a proposta deles, afinal?

Entendem como vocês são uma metáfora bacana? São os artistas mais importantes desse ano e a única coisa que fazem é ficar olhando um pro outro com cara de que querem algo diferente, mesmo que não saibam o que é esse algo, enquanto espalham merda por todo canto. Mas essa é a grande diferença de tudo! Sim, vocês tem um dono que cuida de vocês, e nós? Mas nem em sonho. Só vocês pra acreditarem que os nossos donos se preocupam conosco. Nem pensar. Eles estão pouco se fodendo. No Brasil a ignorância foi exaltada durante muito tempo, agora colhemos os frutos apodrecidos disso. Não, urubus, não é bacana termos frutas podres em excesso. Eu sei que elas vão aumentar e muito a partir desse ano, acho que o povo se transformou num feirante drogado pela incredulidade de mudança. Ou é pura ignorância mesmo, o que é bem mais possível, sim. Eu tenho sistematicamente freqüentado os sites e blogs dos principais candidatos a dono, em tudo que é tamanho de dono, mas os materiais disponíveis são escritos de maneira tão patética e previsível, com frase corretas como ‘desenvolvimento’, ‘sustentatibilidade’, ‘continuísmo’, além, é claro, de tudo ser focado pelo viés do ambientalismo mais aleatório e gratuito que já vi. E é exatamente disso que a coisa toda trata, os teus salvadores são da mesma safra. Vocês dão ibope, então são salvos. As lontras, não, então elas que fiquem no zoo mesmo. Eu falei lontra porque uma muito divertida, que enlouquece quando chega alguém perto, faz gracinha, nada como doida, se joga na água e, enquanto batemos palma e sorrimos, ela deve estar pensando – seu imbecil, me tira daqui, porra, não ta vendo que tudo o que faço é pra chamar tua atenção?, mas ela ta lá, e faz muito tempo já. Não tenho certeza se os teus salvadores a conhecem.

Fala-se o correto, sim, nesses discursos todos, até por serem muitos parecidos, ainda que a incoerência e a impossibilidade de realizar o que se propõe sejam óbvias. O que importa é dizer e não dizer de fato, afinal, uma linha aleatória pode ser facilmente manipulada com o correr do tempo. Como vocês já são. Ninguém olha pra vocês mais como artistas, vocês se tornam bicho outra vez, tiraram de vocês o direito romântico de se iludirem e embriagarem em sonho. Mas, como tudo aqui, é assim, não tenham a coisa como pessoal, a cultura no nosso país é carniça velha. Para os nossos futuros donos, por exemplo, o futuro da cultura está irremediavelmente condicionado à educação. Se ao menos eles passassem pela bienal para entender a diferença entre educar com cultura e usar a cultura como educação. Mas não, exemplos por aqui não servem pra nada aos que já se entendem resolvidos. Parece difícil entender, mas é simples, é como se vocês fossem melhores se estivessem aí na bienal ensinando novos urubuzinhos a voarem. Já foi assim, sabia? Levamos décadas para desconstruir a obrigatoriedade desse paralelismo. Foi o nosso pior momento, quando ambas as disciplinas pertenciam a um mesmo Ministério. O problema é que entender a cultura como manifestação criativa, cujo existir serve ao processo de educar o olhar, é deturpar o valor mais fundamental de qualquer manifestação cultural: liberdade! Não é mesma liberdade de vocês estarem livres pelos céus afora, vocês são quem são e possuem esse direito tanto quanto os pardais e aviões, mas a liberdade maior em serem urubus-artistas numa bienal. É como se vocês precisassem ser outra coisa para existirem aí, entendem? Se vocês estivessem empalhados como o porco ninguém falaria, nem sequer notaria que para ser empalhado é preciso estar morto e, bom, eu nunca soube de um porco suicida,portanto... Ok, se acalmem, por favor, vamos voltar a falar de cultura, então.

A liberdade de qual falo é a do retrato estar na parede para qual existia. Proibir é censurar. O retrato representava dois dos nossos possíveis futuros donos, e ser isso um problema ofende a arte e a democracia, é constrangedor, pois nem ao menos busca disfarçar o controle, faz do espetáculo de sua força a imagem pública de um poder maior e absoluto. Quando os pseudo-protetores da nossa democracia exigem que alguns desenhos sejam retirados, a ignorância se revela perigosa demais. E esse é nosso futuro. Um dono, seja lá quem for, que limita a cultura ao serviço da educação, enquanto estende seus tentáculos partidários e ideológicos para sufocar qualquer manifestação contrária aos seus interesses, e representantes que optam substituir a liberdade pela estupidez do politicamente correto, em nome dos direitos, ainda que esse correto esteja mais próximo a um escambo de interesses entre os poderes do que necessariamente ao serviço da sociedade. A cultura e a arte servem como provocações críticas, sensíveis ao nosso imaginário, nossa subjetividade, à maneira como nos reconhecemos, como nos posicionamos, não são suas funções explicar nada, defender ou acusar algo, necessariamente. Explica-se, defende-se, acusa-se se assim o artista desejar, se assim for sua ideologia. Deixem o retrato no lugar, é o que deveria ter pichado o pichador! Mas, pelo contrário, nossa sociedade, cada vez mais, abstém-se do convívio com a arte, e os poucos artistas que restam se afundam em solidão e desaparecimento. É, urubus, isso tudo é um beco sem saída. Seja quem for que vier a ser nosso dono, estamos perdidos, porque o povo já se perdeu de vez. Estamos sozinhos, eu, alguns duvidosos da história oficial e vocês, artistas de verdade. Vocês, ao menos, ainda podem voar e sentir minimamente a liberdade do vento em suas penas sem qualquer propósito que não o de querer voar. E nós, cujo existir tornar-se-á serviço de qualquer coisa? E eu?

2 Comments:

  • Obrigada Ruy!

    queria ter escrito isso mas não sabia nem por onde começar...
    muitas coisas... e dia 3 de outubro aí... e quem? quem? pessoas que são donas porque querem melhorar seu egos? ninguém pensa no país em si, e sim em si.

    By Blogger Thaís Almeida Prado ou ...e então, eu abri meus olhos..., at 12:20 PM  

  • Adorei o que escreveu sobre Tropa de Elite2. Também postei algo a respeito no meu blog, mais um questionamento da reacao do publico na verdade www.lianegrassi.blogspot.com

    By Anonymous Liane, at 10:31 PM  

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