Antro Particular

06 dezembro 2005

ARENA CONTA DANTON: o grito mudo da vida

Postado na hospedagem anterior do blog na segunda-feira, 4 de abril de 2005
05:17:06


Curitiba. Ao abraçar Cibele Forjaz, após a apresentação de Arena Conta Danton, havia nela um sorriso gelado, um gosto de "obrigado" ao som decepcionado de "a peça aqui ficou muito longa...". Não tive muito o que dizer, então. Mas se pudesse voltar àquele momento diria: "e daí?". Em um espaço absolutamente inadequado ao espetáculo - certamente útil a muitos outros participantes do festival -, a peça recebeu o público dentro do palco italiano, procurando a proximidade e intimidade que o espaço-palco do Teatro de Arena, em São Paulo, possibilitou quando da criação do trabalho.

Mas antes, nada mais necessário: um manifesto contra o fim da lei-de-fomento. Lei agora mantida. A cidade respeitada pela continuidade da criação artística.

Nas mais de 200 peças do festival, rigorosamente algumas questões se mantiveram: para quê se montar este texto? Para que tanta coisa, tanto esforço? Arena Conta Danton responde a essas perguntas logo de início quando incita o público a indicar e tomar partido sobre a seleção dos que deverão ser guilhotinados... "Sérgio Malandro" (morre!), "Paulo Maluf" (morre!), "o chato do meu professor" (morre!)... Aos risos, pouco a pouco vai se desenhando o mais desagradável e incômodo de nossa cultura através do inconsciente coletivo.

O jogo aberto ao público estende-se aos atores através de personagens sorteadas no momento, trazendo ao espectador um gosto saboroso de provocação. Novos sorteios, trocas de personagens. E a comparação revela a qualidade dos intérpretes e a afinação do grupo. Interpretações desmascaradas, dignas de um espetáculo que fornece aos seus intérpretes grandiosas possibilidades dramáticas em uma gama de cenas milimetricamente construídas pela dramaturgia de Georg Büchner.

E há a mão de uma grande diretora em tudo isso. Os anos de Teatro Oficina surgem apropriados, transmutados nas construções das cenas e no jogo, absorvendo a atmosfera do público para criar deliberadamente um laço entre platéia e ator. Ao lado da direção objetiva, Cibele consegue pela iluminação de Alessandra Domingues de maneira magnífica, criativa e decisiva definir as perspectivas e entrelinhas das personagens. O que o público assiste em Arena Conta Danton é a afirmação da capacidade de Cibele em nos colocar contra nós mesmos, com exageros cênicos, às vezes, com paralelismos simbólicos por vezes óbvios, com historicidade cênica datada, porém com a vivacidade e entrega raramente vista nas milhares de peças em cartaz.

Arena Conta Danton é uma peça obrigatória a todos os que enxergam o mundo por formulas bilaterais. O mundo oferecido no palco é mais do que certo ou errado, bom ou mau. Há mais do que isso: existe a moral. Colocada em xeque junta aos nossos mais íntimos valores e sentimentos, à nossa educação manipulada e subvertida por valores questionáveis.

A sobrevivência dos ideais frente ao possível. As necessidades vitais frente ao humano. Somente isso já bastaria para responder sobre a importância de se montar a peça hoje. E há muito mais o que se achar no fio invisível que une Robespierre e Georges-Jacques Danton, pois somos os dois, somos o fio, vida e morte em olhares, gestos e desejos, aos gritos de "mata, mata, mata, mata...". Até o momento em que surgiu indicado pela massa o Papa: de início o silêncio, depois o desconforto. E um novo nome, um novo desejo e os gritos descontrolados voltaram a acontecer na inconsciência e irresponsabilidade de uma horrível diversão infantil.

Ao fim da peça, contudo, lá estamos nós com o mesmo nó na garganta, o mesmo desconforto de antes, só que agora sobre nós mesmo.

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