Antro Particular

24 setembro 2006

ZÉ PERGUNTA AOS CANDIDATOS

Zé Celso me passou este texto sobre o Oficina. Mais do que isso, sobre a Cultura Brasileira. Maiúscula!
Incessante luta pela popularização e acesso à Arte.
Poucos são os artistas em diálogo constante com a nossa cruel realidade, quando a cultura é desarticularda da política, não por desconhecimento de sua importância, mas exatamente pelo reconhecimento de sua capacidade transformadora.
Uma carta de Zé Celso para os candidatos é mais do que uma simples carta. É outro manifesto. Ou o mesmo de sempre!
Ato corajoso em mostrar a cara quando artistas preferem o silêncio hipócrita pelo favorecimento futuro dos governantes, sejam eles quem forem.
Ió, Zé.
A história se consolida com coragem, responsabilidade, ideologia crítica e também humor...
Nada mais Zé Celsiano que um blog denominado Antro!
Beijos, querido.
Ontem saí novamente apaixonado pela vida, pelo homem, pelo teatro, do seu terreiro eletrônico.
IÓ.



Ió! Candidatos à Presidência da República

Da minha parte este texto mais que uma pergunta um pedido de uma declaração de atitude diante do exposto.

Falar de cultura em geral é dar a deixa para os atores políticos responderem de uma maneira tão geral que continuamos a admitir que cultura não é nada, é enfeite, enrolação, sei lá.

O que é o Oficina
No ano de 2008 o Oficina fara cinquenta anos. Caso único no país de um Teatro que não somente manteve-se como companhia de criação coletiva, num espaço físico concreto, com repertório de espetáculos há quase cinco décadas de realizações premiadas, grandes sucessos de público, de interferência na vida brasileira, internacional, deixando vestígios estéticos, políticos, tatuagem no corpo social e individual e acima de tudo realizando a função ritual do teatro mais arcaica mas eternamente contemporânea de cantar, expor os bodes coletivos, pessoais, tocar nos Tabús na sociedade colonialista para torná-los Tótens, o que fez dele um paradoxo: um Teatro respeitado de forma unânime mas não uma UNANIMIDADE. Um Teatro que considera o público como atuador criando a consciência do poder humano da presença física individual e das grandes correntes que os humanos criam.
Sem modéstia nenhuma posso dizer isto porque é um fato concreto, constatável na memória viva e documentada, mas principalmente no fato de que nada resiste ao tempo desta maneira se não faz parte de um movimento que transcenda totalmente uma pessoa, a minha por exemplo Zé Celso, a de todos que aqui trabalharam, trabalham e trabalharão, a de todos que no Oficina estiveram, estão e estarão participando, assistindo suas peças, desde 1958, ou simplesmente recebendo a repercussão direta ou indireta de tudo que se passa, passou e passará nele. O Oficina é um Cosmos criado no Brasil, expandindo-se tanto no Bairro do Bexiga como cada vez mais pelo Globo.

A Questão Que Se Coloca
Há 25 anos o Grupo Financeiro Silvio Santos não consegue construir seu Shopping porque forças sociais forneceram as mesmas condições de luta para que hoje se fabricasse neste lugar 24 horas de teatro, 5 dias de atuação em torno da origem primeira da grande interpretação do Brasil contida em “Os Sertões” de Euclides da Cunha, mas também dos Canudenses reunidos em torno de Antônio Conselheiro, do próprio Exército, do povo brasileiro dos século XIX, XX e da nossa geração de vivos, neste Brasil de hoje, destes dias iniciais do século XXI. Esta é uma pergunta que precisa destes longos pressupostos sobre o Oficina porque para que compreenda-se não somente esta vitória do poder da cultura brazyleira sobre o Tempo, mas sobretudo o que ela sintomatiza em possibilidades que se abrem, para todo o saber, a energia, a arte política, pública, poderosamente humana, acumulada neste quase meio século no Brasil.
Hoje até os políticos que não tem a menor educação falam que a única solução para o país é a educação. A Revolução Cyber reforçou esta consciência. Mas evidente que não adiantará nada uma educação de um rebanho obediente cybernético. Talvez com a revolução digital o delírio patológico de criar rebanhos humanos seja mesmo impossível. O que está em questão é uma educação que torne os cidadãos do Brasil aptos para criarem, inventarem sonhadora e criticamente diante dos impasses cada vez mais complexos que o capitalismo, e todos os ismos, e fundamentalismos na sua fase terrorista, impõem através de seus dogmas que não resolvem nada, nem limpeza de galinheiro.

Pois neste momento o Umbigo da maior cidade do Brasil, o Bairro do Bexiga, onde restou um povo, apesar da ferida urbana imensa feita pelo Minhocão: o “Elevado” Costa e Silva !, vive uma questão que é resumo, teatralização de todas as questões do Brasil.
O Grupo Financeiro Sílvio Santos pretende dar prosseguimento à destruição-para-construção de um Shopping de tal modo que o entorno Tombado do Teatro Oficina pelo Condephat, agora em processo também de Tombamento pelo Iphan do MINC sob a condução tropicalista antropofágica admirável de Gilberto Gil, se assim for, vai virar, por um tempo, terra arrasada.

Este pedaço de São Paulo, quarteirão-cabeça, que já foi sede da Une, do PT, do PC, onde há muitos Centros Espíritas, onde havia também Terreiros de Macumba, templos Budistas, onde havia Primeira Sinagoga de São Paulo destruída pelo Grupo Silvio Santos, pode ser:

mais um Shopping,
somado ao projeto que o Grupo tem para o Bexiga:
trasformá-lo numa Bela Vista Las Vegas, Broadway Brasileira
ou
uma Ágora, um Centro de Cultura, Educação, Inclusão, Prazeres do Ócio, do Cio e da Criação
(não gosto da palavra entretenimento) lugar de encontro de todos os guetos pobres e ricos da cidade, como a Lapa do Rio, o Recife Velho Restaurado com sua Sinagoga por onde passaram os fundadores de Nova York, como Pelourinho de Salvador.

O Shopping, ponta de lança de um Projeto de urbanização do Grupo Financeiro, como já o fez desde o início da destruição, expulsará o povo do Bairro à pranchadas. Justamente o povo, destinado a ser o ator principal, o acolhedor e o acolhido, do Centro de Misturas Culturais Público, que o Oficina vem criando progressivamente no lugar. Como esta história do Grupo Financeiro veio cair nos pés do Teatro Oficina há 25 anos, o Oficina Uzyna Uzona vem propondo e criando uma alternativa que tem progressivamente crescido e inspirado uma saída não massacradora como em Canudos para o Bairro mais Cosmopolita de São Paulo. A Construção de um Teatro de Estádio, que acolha toda potência surgida na Arte Teatral em São Paulo, sobretudo nos Coletivos de Teatro que não fazem “contra partida social” mas trabalham com os excluídos porque sabem que lá está a força dinamizadora da Arte, única Arma mais atraente que o Crime.

Alguns desses grupos, como por exemplo, o GRUPO VERTIGEM, que tem semeado a vida no emerdado Rio Tietê (BR3), OS SÁTYROS, OS PARLAPATÕES na Praça Roosevelt, detonada pela ditadura para que lá não houvesse a ameaça das multidões reunidas, criaram uma efervescência urbana noturna grandiosa. A COOPERATIVA DE TEATRO DE SÃO PAULO, O TEATRO FOLIAS DAS ARTES, ad Infinitum, etc, etc, etc.....

São Paulo tem muitos Grupos-Movimentos que são afluentes como o Oficina de um Grande Retorno ao Teatro como Força Política da Multidão Criadora, como foi a Grécia da Tragédia Grega, a Inglaterra do Teatro Shakespereano, como os anos 60 do século passado, em todo mundo.
Uma Universidade Popular Antropofágica Barbaramente Tecnizada, Plugada, voltada totalmente para o desenvolvimento do Poder Humano de Criação Pessoal e Social através de um ensino inspirado na Cultura Brazyleira, como Glauber escrevia, fazendo contracenar a alfabetização CIEPS com as mais avançadas pesquisas de saber estético, tecnológico inclusivo, em torno das questões concretas que impedem o Brasil de quebrar sua imoralíssima desigualdade social. Uma escola de formação de líderes criadores para todas as áreas entupidas pela rotina, submissão e falta de criatividade. Arte em si Política, por isso Reprimida até a Tortura nos anos da Ditadura Militar que preparava a Ditadura Financeira que colocou o teatro como arte descartável e caça níqueis da TV.

Estes movimentos de criação já nem podem mais ser chamados de projetos porque são movimentos embrionários, fortalecendo-se a cada vez, contagiando como uma peste o Brasil afora e o mundo por seu trabalho pra Preservar Ecologicamente o Poder da Epécie Humana à beira de exitinção, mais, de Potencializá-la.

Quero perguntar aos Ilustres Candidatos qual e a sua atitude diante desta Poesia Concreta, deste Fenômeno Raro que sendo local é também Nacional, Internacional e Cósmico.


A ATITUDE PERGUNTA:
Em torno desta Metáfora:Dilema de todo Globo


Jogar Fora o Corpo-Alma Criador de seu Povo
para Criar mais um Carandirú de Luxo,
Um Gueto da Classe A,
um Palácio da Agorafobia e do Marketing
ou
cair de boca nessa oportunidade de dar ao País, na Capital do capital, uma Ágora, um Centro de Energias Criadoras do nosso Poder de realmente criarmos as soluções grandiosas que o Brasil precisa ?

O conteúdo da política brasileira está no miolo de sua cultura libertária popular, musical, literária, cinematográfica, culinária, sexual, religiosa, absolutamente misturada, científica. Constituem o caminho original de uma Política Brasileira Descolonizada, saída da atual decadência para uma Ascendente. Pra lá do dilema moral-imoral, este cisco no olho que nos impede de ver a potência da criatividade de nosso país.

A PARTIR DESTA ATITUDE OUTRA MAIS GRAVE PORÉM NÃO MENOS NECESSÁRIA: que passam pela quebra de TABU. Dependendo da atitude dos canditatos diante deste fato, se tiverem a paciência e a disposição de um tempo real de lerem esta pergunta, que exige todo este preâmbulo, pela própria situação de ingorância do Brasil sobre sua própria fonte de Riqueza Cultural, o Brasil talvez possa se indagar sobre outra atitude: O Brasil pode ser o primeiro país do mundo a promover grandeza da Abolição da Escravidão do século 21 através da descriminalização Total das Drogas, tirando da Polícia sua administração e passando para o Ministério da Saúde, Cultura e evidentemente da Fazenda (é uma grande riqueza econômica do Brasil) uma questão totalmente Cultural, que livrará o pais deste Genocídio praticado diariamente principalmente contra as crianças de todos os Canudos-Favelas de todo País. Os prejuízos e mortes por overdose são incomparáveis diante da verdadeira guerra civil promovida pela Guerra contra o Tráfico com número de óbitos de guerras do Oriente Médio.
Somente um País em que as Estruturas de Poder Publico e Privado possam ser transmutadas pelo Poder de interferência da Energia Criadora Humana de seu Povo, numa Perestroika, além dos marxismos vulgares, dos capitalismos terroristas marketeiros, enfim, de todas as catequizações e fundamentalismos, encontrará caminhos para ultrapassar os entraves, problemas que parecem ser eternos imutáveis e que não passam de Tabus a serem visitados corajosamente.
O Brasil como o mundo, criadoramente, poderá caminhar para sua evolução regressiva (como queria Euclides da Cunha e Oswald de Andrade) ao Índio Antropófago Universal de onde todos no mundo viemos para podermos hoje retornar e tomar posse de tudo que nos destruiu e construir um mundo à desmedida da potência criadora da natureza humana, animal, mineral, vegetal, solar. Dionísios é o deus do Teatro e é Brazyleiro. Em se plantando aqui, deu, e deu bem.
Para todos os Ilustres Candidatos, antes dos votos, votos de uma Campanha Intensa, que Ilumine o Brasil e em vez de Boa Sorte o atrevimento de desejar a PALAVRA que nós quando entramos em cena nos Teatros desejamos uns aos outros para entrarmos com tudo, além do bem e do mal, para atuarmos potentemente:


José Celso Martinez Corrêa

MERDA

2 Comments:

  • Ruy, feliz em ver a abertura de seu espaço para manifestações como esta.

    Zé, apaixonado não só pelo resultado de sua obra, mas pelo mecanismo de sua criação, é sempre bom poder lê-lo. Porém, sou ainda apaixonado pela concepção arquitetônica e construção do Teatro Oficina.

    Diante desse dilema entre vocês e o Grupo Silvio Santos, que há tempos circunda a classe cultural e a imprensa, vejo a importância de nossos governantes, atuais e futuros, preocuparem-se com o desenvolvimento cultural do país.

    A educação é a base, sem dúvida, mas ela não pode ser feita apenas de números binários, com seus "zero" e "um".

    MERDA!

    By Anonymous Ricardo Ferro, at 12:17 PM  

  • Parabéns pela entrevista Ruy!:

    1) Que nosso ministro da cultura aproveite a deixa para fazer algo de concreto para o teatro em sua gestão desoladora.

    2) Que os candidatos leiam e respondam!

    3) Que Viva Zé Celso!!!

    Evoè

    Amadeo Lamounier

    By Anonymous Anônimo, at 12:31 AM  

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