Antro Particular

28 dezembro 2006

ARNALDO CARRILHO: Natal, Palestina e um pouco de todos nós

O Natal passou. Mas deixo aqui os votos e reflexões trazidos pelo Embaixador Arnaldo Carrilho, na Palestina. Os votos acompanham ainda carta de Michel Sabbah, e um levantamento feito pelo Palestinian Monitoring Group.
Este que nos parece um problema tão longínqüo é de todos nós, da Humanidade.
Outro ano. E a Palestina pode ser um ótimo instrumento para refletirmos sobre nós mesmos e o que esperamos do futuro. Tolerância, respeito, diversidade... 2007, façamos dele possível a todos.

Abraços,
RUY FILHO

Caro Ruy,
obrigado por seus bons votos de Boas Festas, que retribuo com prazer. Segue anexada a Mensagem de Natal do oficiante da Missa do Galo em Belém ocupada e murada, à qual assistirei na friagem invernal das alturas dos TPOs/Israel. Mandei umas palavrinhas, na esperança de aquecer as mentes de uns e outros. Se o texto não chega a escala de Ideal Grego, revela ao menos que um padre secular da velha Palestina, ao tornar-se Patriarca dos católicos, e sobretudo após o Vaticano II, tomou a defesa de um povo impedido de alcançar a soberania há quase 60 anos e ocupado há perto de quatro décadas. Isso perfaz um dos maiores, dentre tantos, escândalos diplomáticos da última centúria. E dai? - diria o Eça, quando se anunciou a queda do Bey de Túnis, não é verdade?
Um abraço do Arnaldo C.

Querida(o)s Amiga(o)s,

Enquanto o consumismo neo-capitalista prossegue, ávido e injusto, na tarefa que lhe é própria do embrutecimento de mentes e corações, nesta parte do mundo um prelado de Nazaré diz ao que veio. Nasceu quando sua terra se chamava Palestina, onde se abrigavam povos muito antigos, em maioria semíticos e de crenças e culturas de extrações neo-abraâmicas. Pois sua cidade tornou-se parte de outro país, criado pela comunidade internacional no alvorecer das Nações Unidas, para acolher imigrantes e refugiados de origem européia. Estes europeus, dominados por uma ideologia ocidental derivada dos nacionalismos excludentes do século XIX, expulsaram, confiscaram, prenderam, torturaram e mataram a valer os autóctones, não pucos de ascendência (bi)milenar. Hoje, faz 39 anos e meio, os ocupam e exploram, praticando os crimes de sempre. Como a História não passa de homologações sucessivas de conquistas, Sabbah, no outono de sua carreira eclesiástica, abraça essa realidade e só pede a desocupação da ZL de Jerusalém, Cisjordânia, Ghazaa e do Vale do Jordão, onde 4 milhões de palestinos, mais os quase 10 espalhados pelo mundo em exílio e refúgio, encontram a opressão, a injustiça e a morte. Quando usa o termo "powerless", leio outro: "indiferença". Primeiro palestino nomeado na história católica do Oriente Médio para dirigir a pastoral em Israel, na Jordânia, nos TPOs (Territórios Palestinos Ocupados) pela primeira e Chipre, a sua é mensagem de uma paz a ser também conquistada (paz não cai do céu). Há nela embutida uma posição saudável de, por assim dizer, Teologia da Resistência, como se fora um braço levantino da Teologia da Libertação. Não apenas por isso, ao longo de duas décadas na função - aposenta-se em inícios de 2008 -, se tornou não muito benquisto pela Hierarquia vaticana. Nunca se desmoralizou em negociatas de terras e propriedades eclesiais com israelenses, como outros líderes de outras igrejas cristãs nestas paragens. Não anda atrás de dinheiros, mas de liberdade para seu povo. O preço tem sido de sangue e destruição. Paz se conquista, repito.

Abraços afetuosos do
Arnaldo C.

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