Antro Particular

17 abril 2009

Reencontro com o Brasil 1: uma tarde ao som dos ditirambos

O Teatro Oficina lança, enfim, a caixa com as gravações para dvd de quatro de seus espetáculos: Bacantes, Ham-let, Boca-de-Ouro e Cacilda. Aos poucos, escreverei aqui sobre cada um. Inicio esse mergulho por Bacantes. Diversos são os motivos a me guiarem nessa escolha. Fora a apresentação do espetáculo, realizada na cidade de Ribeirão Preto, que me levara a desistir do curso de medicina e me conduziu definitivamente ao teatro. No dia seguinte ao espetáculo, tal decisão se formalizou frente ao caderno de provas da Fuvest com o preenchimento do gabarito oficial de maneira aleatória e a opção de esquecer definitivamente a sonhada neurocirurgia. Fora Bacantes, também, que me levara de volta ao Teatro Oficina e Zé Celso, anos depois, já para a gravação em dvd, no convite para dividir, ao lado de Fernando Coimbra, a criação dos vídeos e projeções que permeariam a cena. Portanto, não haveria de ser outra a porta de entrada que não Bacantes.

A montagem de Bacantes idealizada por Zé Celso encena mais do que a tragédia elaborada por Eurípedes. Traveste a arte (tanto quanto Dionísos à Penteu) em um precioso e perigoso jogo de recomposição da ordem. As atualizações permanecem como manifestos ao tempo e à sobrevivência do humano. A maneira como o espetáculo é recriado, num saboroso jogo de transcrições e apropriações antropofágicas, determina atualidade décadas depois de sua criação. Se Dionísio, interpretado de maneira leve e pertinente por Marcelo Drumonnd, resgata a perspectiva da celebração, está na existência do espetáculo (em seu sentido mais amplo) a conquista maior da montagem, ao propor que o espectador pertença e seja o culto e não simplifique sua existência ao mero assistir passivo.

Bacantes ratifica a importância do diálogo entre os pólos (cena e exterior), como se o além do palco _ escondido pela encenação sob o transparente véu que separa a platéia _ justificasse a importância do fazer teatral. Ou seja, o teatro não está mais e apenas no centro do picadeiro, mas na condição de celebrante exigida ao espectador, em sua capacidade maior de testemunhar a fábula. Um artista existe na manifestação de sua arte, e em Bacantes a arte reside na potência do observador, a quem é ofertada a possibilidade de readquirir os arquétipos que o faz humano e o conduz ao coletivo.

Por um lado a música dá representação ao imaginário, por outro a melodia se expressa na exuberância estética quando o nu explícito subjuga a moral ao instinto ordinário em sua persistência pelo desejo. Está no outro o reencontro consigo, o reconhecimento da similaridade, cuja simplicidade exposta de maneira lasciva e natural vai além de bocetas e paus. É preciso se desvencilhar das vestes morais, conceituais e literais para que possamos escutar os ditirambos e, assim, evoluir sobre o sujeito individualizado do contemporâneo para restituir a participatividade no que lhe atribui mais representatividade como espécie: o corpo. Homens, mulheres, jovens, velhos, negros, brancos. Nada é mais capaz de categorizar o homem que o reconhecimento de ser o outro o seu espelho. E para isso, a amplitude da musicalidade _ em voz, corpo e movimento _ traduz a percepção de estarmos todos envolvidos na mesma redescoberta, dentro e fora de cena.

Máscaras são abandonadas e reencontradas durante a apresentação em suas obviedades e metáforas, portanto. Diversos são os momentos construídos para recompor no espectador a compreensão da persona ficcional. Seja como touro, seja como coadjuvante inserido à cena e, quase sempre, ironicamente abandonado, esquecido porém incorporado, então existente e indissociável. Como se, uma vez participantes, fosse impossível a descontaminação do palco da presença terceira. É através desses desmascaramentos do público que o sujeito revela-se força coletiva, existência social igualada na ação litúrgica-teatral, no pertencer a mesma estória. Quem, ao fim, atua para quem? Quem, de fato, banqueteia a caça? E quem, verdadeiramente, é a caça? Penteu representa o cartesianismo pragmático do poder que, exposto ao incivilizado, fascina-se na redescoberta do labiríntico sobrepor de personas que forma nossas máscaras. Penteu reencontra maquiado sua face primeira, instintiva, animalesca, no espelho daquela última a ser temida, sua mãe, Agave, agora figura em devaneio e sobrevivência ébria.

Há aí a inversão conduzida do próprio fazer teatral. Enquanto a dramaturgia avança sobre o contar a origem própria do teatro, serve o espetáculo à condução do público à ritualização orgiástica da qual os atores são protagonistas em seu culto pessoal. Além, ainda, a dogmatização do público cuja permanência em sua função ritualiza o espetáculo como exaltação maior do próprio rito. E, em uma quarta camada, a soma dos três vértices (dramaturgia, atuação e participação do observador) leva à real teatralização do próprio culto. Não é possível mais separar, portanto, da cena quem a observa sem compreendê-lo fundamento igualmente narrativo.

O Oficina recria o culto dionisíaco estabelecendo novos paradigmas de como devemos proceder à busca do divino. Mais do que o figurativo mítico, fala da perspectiva de teatralização espetacular dominante em nossas vidas, da fé forjada em preceitos de manipulação. Sagrados somos todos no cerne de nossas emoções, ainda que dominados pelo correto comportamento de uma moral limitante. Bacantes diverte-se em desconstruir tais princípios oferecendo, por exemplo, o cu a Nossa Senhora enquanto exalta Semele como mãe maior. O ator prostrado expõe sua intimidade como oferenda irônico e simbólico. O ridículo assume a face do sagrado e transpõem a barreira do riso inevitável ao valor maior de estar no próprio homem os aspectos que o tornam sagrado. O homem é parte da naturalidade da evolução, e os deuses, elementos criados como intimidação do outro e do futuro. A fé na face libertária de Dioniso recria o divino maior imposto. Semele sacraliza o homem como senhor do destino, ainda que o futuro deseje a morte, ou nesse caso, a recombinação entre o universo e a história. Assim, o espetáculo nos previne do quanto abandonamos nossos instintos e origens submersos que estamos a valores não naturais, construídos em interesses, culpas e vergonhas.

O desconstruir paradigmas e dessacralizar dogmas fazem com que Tirésias assuma o papel maior na condução da travessia. Na versão de Zé Celso, o adivinho cegado por Hera por ver demais, é interpretado pelo próprio diretor, vivenciado-o na condição de se tratar o espetáculo um enorme movimento para conduzir o público à liberdade dionisíaca, naquilo que o mito mais possuía de libertador: a expansão das percepções físicas e emocionais de seus iniciados. Para isso o vinho e a embriaguez, a música e o canto, os corpos e os encontros, para que pudéssemos nos livrar das amarras sociais e culturais que nos transformaram naquilo que é entendido por civilizado. Dioniso não quer isso, tampouco Zé Celso. E o diretor-corifeu se faz maestro de satiros e bacantes durante o processo de nossa libertação. Nada é mais simbólico, já que Zé Celso traduz, sim, a gota de ressurgimento de um discurso nacionalista, após décadas de identidade forjada por ditadores, destituído dos vícios rançosos de discursos acadêmicos falidos. Zé costura o viver livremente o teatro com a teatralização da vida, e nos oferece um espectro diferente em como podemos romper os paradigmas que tanto nos aprisionam em certezas que nos conduzem à estagnação e submissão à ordem.

Entre a idealização de Bacantes, as primeiras leituras, as primeiras temporadas, a chegada do público e o lançamento do DVD, o universo dionisíaco do Oficina venceu fronteiras, atravessou preconceitos e esbarrou em outros muros. Só que, ao fim, Tirésias venceu. Fez-se, como anuncia Zeus (na figura de Peréio), o vedor de nossa história. E Dioniso contaminou uma geração que recuperou o ritualístico no teatro e nele um dos mais valiosos criadores e instigadores da nossa cultura. A caixa com os dvds é material obrigatório, não apenas aos apaixonados pelo palco, mas, sobretudo, àqueles apaixonados e delirantes pela reconquista de nossa identidade. Estão ali, sem dúvida, os novos manifestos do que significa ser verdadeiramente brasileiro, pela amplitude de um olhar crítico, irônico, político e faceiro.

Guardo uma emoção silenciosa por ter participado de tudo isso. Parabéns Zé. Parabéns a todos...

1 Comments:

  • Ufa !!!
    Adorei seu texto, super interessante !!
    Interessante que depois que o assisti (infelizmente so em DVD) minha 'vissao' persepcao de teatro mudou !!!
    Eh um espoetaculo que ou voce ama demais ou nem pode pensar , mas nao passa 'batido' mexe sem duvida com o ser humano !!!
    muito bom seu POST !!!
    Beijos

    By Blogger Susan Clayre, at 3:19 AM  

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