Antro Particular

23 fevereiro 2010

INFÂNCIA MADURA

Todos passamos pela infância. Invariavelmente. É do estar vivo o instante em que corpo, percepção e subjetividade se organizam por etapas sobrepostas reconduzindo sistematicamente o ser ao que parece apontar evoluções. As etapas e entendimentos do que venha a ser a formação da infância, qualquer apontamento mais cientificista de sua constituição, não me interessam. Encontro a infância num revelar-se constante de descoberta, destruição e criação. Percepção abstrata minha e sem fundamentação acadêmica, assumo, a infância qual respondo ecoa da minha própria, do olhar o início de quem me tornei, como me tornei e seus momentos. Desta maneira, acredito dialogar com tantas outras que, assim como a minha, deram-se em ambiente seguro e controlado e possibilitador das potencialidades que tornavam a época instante único. Sim, a infância não retorna, não reencontra, não ressurge, não se re-experimenta, não se resume. Porque, e sempre ao nível do talvez, seja descoberta-escolha, seja construção-desconstrução, seja criação-imaginação.

Fundamental e incontrolável, a descoberta forma o conteúdo da subjetividade ainda subjugada às percepções próprias do corpo. E este o elo de encantamento e desilusão da realidade, do riso que atrai empatia ao choro por vezes raivoso da incompreensão do porque somos incompreendidos. A descoberta traduz a amplitude do que em nós há para ser preenchido, de tudo o que haveremos de possuir depois. O corpo em contato físico ao toque das mãos e olhos que igualmente tocam os corpos-objetos-presenças, leva à percepção cifrada o entendimento das informações que, sendo descobertas, mais se aproximam de verdades necessárias à falsa sobrevivência, do que reais verdades absolutas. Mentimos nossas verdades como subterfúgio único de diálogo com a realidade. Entendemos a realidade a partir daquilo que fisicamente dialoga e nos serve por imediato. E dessa maneira, condicionamos a subjetividade ao limite do necessário. Portanto, a descoberta na infância paraleliza as escolhas. Ao menos útil, outros momentos surgirão às suas importâncias. Durante a infância, a descoberta é defensiva, é encontrar na própria ação de descobrir os instrumentais físicos, corporais, capazes de manipular contextos e arredores.

Por necessidades óbvias, a infância transita entre o construir e o desconstruir paradoxalmente. Óbvia porque, evidentemente, a subjetividade não possui ainda os alicerces mais ordinários de reflexão crítica e consequencialidades históricas. Tais alicerces, já adultos, estruturam a construção ao seu sentido de acomodamento e a destruição ao de substituição e aniquilação. Durante a complexidade da infância, construir e destruir são parâmetros xifópagos, estruturas de relação com o exterior, que amplifica a subjetividade em escalas geométrica, quântica até, se pensarmos nos intervalos e desdobramentos que ramificam o conhecimento. Construir, portanto, pode ser sim a ação de destruir, e vice-versa. Constrói-se aniquilando, obrigando a ocupação do vazio por qualquer outra coisa, independentemente do desejo por essa outra coisa. Destrói-se, espelhadamente, ao tentar erigir e, assim, esmaga-se a pluralidade da escolha. A infância, enfim, pratica, da maneira mais amoral, a liberdade. Cabe a cada instante definir se sua existência há de validar-se construtiva ou destrutiva, e, mais verticalmente, se tais aspectos ecoam ao seu cartesianismo ou ao quântico de suas variantes.

O terceiro pilar, criação, configura a face maior da infância, ou, ao menos, a mais explícita. Soma amplificada dos anteriores, criar reflete a necessidade de imaginar, da busca simbólica de construção do que ainda não existe pela limitação da experiência vivida. Cria-se, imagina-se aquilo que não se tem, o que não há, o que há de vir. Por isso, possivelmente, a imaginação na infância é tão fértil, tão vasta. Mas há diferenças entre a ação de imaginar e imaginar a ação. Na primeira, a subjetividade é conduzida dentro de parâmetros racionais; na segunda, a subjetividade conduz a racionalidade ao esvaziamento e potencializa, de fato, a criação como modo aleatório e não sistemático, com texturas indecifráveis e não narrativas, com preceitos orgânicos e não lineares. O criar estabelece um outro, não necessariamente escolhido, mas real. A criação, a imaginação, imaginar a ação, imagem em ação, em movimento, conduz a realidade à outra, a de quem a cria, a de quem nela está. E é nesse ambiente lúdico próprio que a infância se satisfaz, substituindo o desconhecimento, o não-reconhecimento e as faltas pelo trazido de si próprio, pelo outro do mesmo, do que não se vê, se sente ou se é. Criar, imaginar, então, celebra a infância a sua essência maior: dar a si um outro existir.

Ocorre, todavia, em nosso tempo, um desagravo. A infância se esvai na desmedida de uma adolescência cada dia mais precoce. Um suposto amadurecimento que, na realidade, foge da infância pela pressa em querer não ser ‘infantil’. Crescemos antes de estarmos prontos ao crescimento. E a infância abortada por convenções sociais limita a subjetividade que, agora adolescente, deverá se impor madura, crítica e suficiente. Como, porém? Como se perdemos o tempo do riso e do choro, da construção paradoxal, do imaginar a ação? Como se anulamos da infância tudo aquilo que será vital à adolescência? Como podemos ser maduros se ainda não fomos ingênuos? Como podemos ser críticos se ainda não fomos livres? Como sermos suficientes se ainda não nos experimentamos frágeis? A desvalorização da infância forma um sujeito incapaz de imaginar, sem ramificações. Adultos lineares e simplórios de repertórios simbólicos, incapazes de ampliar metáforas, de se expressarem pelo não óbvio, de sentirem a si, ao outro, ao mundo e as emoções. Adultos perdidos num pragmatismo destrutivo sem compartilhamento de qualquer coisa de si mesmo, destruídos sem construções.

Mas nem todos...

Aos que sobreviveram ao mercado da adolescência e mantiveram suas infâncias ao tempo devido, a realidade é maior que o real, possui paralelismos, adentra o outro de maneira única e elabora a si mesmo dentro de uma vastidão de outros eus. Esses tantos em um, torna o sujeito mais simples ao social e mais complexo à sua particularidade. Porque ele é ele mesmo, é o outro, é os que não existem e os que nunca poderão ser. Aquele que traz consigo a infância dobra o olhar para dentro e fora complementariamente, faz de sua subjetividade o parâmetro de reencontro com a mentira lúdica que nos torna capazes de sobreviver ao tempo da realidade. E nessa ação, liberta-se, permite-se e ao infinito cria, imagina, re-significa e apenas é. Gero Camilo é desses homens que trouxeram a infância pro sempre. Em gesto, em sorriso, em lágrima. Revela um corpo infantil sedutor e manipulador de nossas conclusões. Um corpo que finge mentir, mas que na realidade vivencia a infância do gesto, das escolhas transitórias. Narra não para os ouvidos. Nunca. Escutamos porque as palavras são ditas, apenas. Mas são falas que surgem poesia de olhar e imaginar discursando à infância do outro quase sempre abandonada pelo pragmatismo do adulto que precisa ser adulto. E recupera o mínimo daquilo que nos tornou o que nos tornamos. Age assim, dilacerando a si a outro outro, transferindo sonho e escolhas, nos conduzindo delirantes ao seu universo construído, cênico, verdadeiramente mentiroso e infantil. E não é isso o que faz do homem um artista? Não. Isso torna o artista a própria poesia. Olhos poesias, palavras poesias, salivas, mãos, respirações, silêncios poesias. Gero torna o palco seu e nosso. Traz-nos cúmplice de sua criação pelo desejo de quem assiste. Torna-o mundo e imaginação a ser descoberta e destruída.

Cleide, Elo e as Pêras, em cartaz na sala experimental do Teatro Augusta, a um metro do nosso olhar, ao toque de nossos sorrisos e lágrimas e desconfianças, explode em poesia a teatralidade inventiva típica da infância madura dos homens adultos. São personagens que habitam a essencialidade do desejo, do corpo entregue ao outro e nesse outro re-descoberto. O encontro de si no outro. Feito a inocência da infância que compreende os sentidos das coisas a partir do que lhe convém. Envolver-se com a vida a partir do que lhe determina um outra fragiliza a existência, em uma primeira observação, mas, logo mais, explode em violência de desejo, numa espécie de contradição e confronto em dois mundos. Não apenas o de quem sofre e de quem causa a dor, mas entre a racionalidade adulta das conclusões e a infantilidade do sentir desmedido, desprovido de julgamento. Os personagens de Cleide, Elo e as Pêras são maiores que as histórias que os criam, pois são etéreos numa realidade concreta indiscutível na percepção de uma criança, trazendo a maturidade própria de quem se permite ingênuo, o olhar crítico de quem vivencia a liberdade, a suficiência única de quem se quer frágil. Infantis, portanto, no que há de mais adulto em uma criança: o viver. Do jogo ao sexo, do sexo como jogo, do desejar o desejo do outro, Paula Cohen e Gero Camilo deixam de atuar muitas vezes, pois muitas são às vezes em que deixam de ser simples atores. São poesias da cena. Olhos, mãos, lágrimas, silêncios. Gero e Paula vão além deles mesmos. São outros. São mais. Não apenas outros ao serem outros, personagens. São criações, imaginações deles mesmos em universos criados para serem verdades. Sopros de hálitos doces e amargos em nossos ouvidos-olhos e almas. E Gero sabe disso. É evidente. Domina a dominação do dizer. Sabe saber. Sabe ser o menino homem que deve ser. Porque se permitiu um dia, ainda criança, levar consigo a infância. Só que hoje, homem grande, perdeu-se em sua imaginação. Tornou o criar a ação a ação de imaginar. E hoje, o que nos sobrou, é sombra, é outro dele mesmo. Poesia em forma de gente.

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