Antro Particular

02 fevereiro 2009

CSES por César Ribeiro

COMPLEXO SISTEMA DE ENFRAQUECIMENTO DA SENSIBILIDADE ou JOGUETES DE NÓS MESMOS

Grande parte dos artistas aposta em seguir regras determinadas que lhes deem a impressão de que seus trabalhos serão colocados na roda ou se perpetuarão nela, optando por tentar fazer bem-feito um modelo copiado e recopiado e recopiado ao infinito. Alguns poucos artistas preferem criar uma linha particular de procura de significados éticos e estéticos, e nesse risco podem se deparar com erros no percurso e na execução. De qualquer maneira, tendo a sempre preferir uma arte do risco que tenha suas imperfeições a uma arte perfeita que aposte no lugar-comum. Mesmo porque essas ditas imperfeições na verdade não são do criador, e sim do espectador, que ao estar diante de algo pouco convencional pode não apreciar determinadas soluções. Afinal, ao contrário da arte usual, a real criação pede um novo olhar do público, exige uma atenção diferenciada para compreender os códigos emitidos... Ou seja, exige um público inteligente. E com inteligência não estou me referindo àquela das escolas, das academias etc., pois esta não tem nada a ver com inteligência, e sim com conhecimento de informações oficializadas.

Bom, todo esse blábláblá para falar de Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade, peça escrita e dirigida por Ruy Filho que está em cartaz no Satyros 2. Há muito que falar de uma encenação como essa, mesmo porque o estilo de pesquisa colocado no palco segue os mesmos princípios das peças que faço, com soluções estéticas muito diferentes. Não sei se há uma influência proposital ou ela surge apenas porque muitas delas nos assolam sem que tenhamos consciência ou porque essas influências são na verdade minhas, mas há muito na peça do Ruy das buscas de Gerald Thomas e muito também da franquia cinematográfica Jogos Mortais — sou fã declarado de ambos.

A base da peça é o jogo dominador/dominado, com papéis claros que se misturam às vezes, e a peça se desenvolve como um jogo em que o dominador transfere a sua capacidade de domínio para o dominado, fazendo dele um novo possível companheiro de “trabalho”. Sim, de trabalho, a oficialização da imposição. Um marco desse curso montado em cena para compartilhar o ofício de dominador está na ideia de que o dominado não tem rosto, representando uma multidão, enquanto o dominador exibe sua face em detalhes. O dominado usa sempre uma máscara. Quase sempre. Quando o jogo está perto do fim, quando o curso de enfraquecimento da individualidade está perto do fim (símbolo da morte), o dominado ganha um rosto. A morte revelando a face. Mas essa face desmascarada pela “morte” não tem nada de romântica: é a igualdade, ou quase igualdade, do exercício do poder que lhe dá nome, que permite que o rosto seja revelado. Após essa revelação, ambos duelam no mesmo patamar, ou quase no mesmo patamar, com os papéis se invertendo em alguns momentos. Mesmo porque se o dominador exerce seu domínio sobre o dominado, acima do dominador há outro, superior, que torna o dominador um dominado, fazendo com que todos sejamos joguetes de nós mesmos. Da mesma forma há a ideia Hannah Arendt da responsabilização do dominado por de certa forma querer seu dominador, que lhe eximirá da responsabilidade da opção.

Essa é a base que vejo na ligação do trabalho de Ruy com o de Gerald Thomas, lembrando que, apesar de suas similaridades, é outro trabalho, que em nada copia Gerald, mas segue alguns princípios que ele usa e que muitos outros deveriam seguir. Nas obras de Gerald há sempre a figura do interventor, a voz “divina” que a tudo vigia, que observa todos os passos e muitas vezes os controla, que ri da própria e patética criação. Na peça do Ruy esse interventor também está metaforicamente presente, como se todos fossem peças de uma engrenagem da qual ninguém lembra a origem... mas que deve continuar funcionando.

Já em relação a Jogos Mortais a base é a própria relação dominador/dominado montada como um quebra-cabeça que vai se unindo aos poucos diante do olhar do público. Tudo isso em um ambiente metálico, uma espécie de Trilogia Cubo (também duca). Os jogos são armados, as relações são criadas, os objetos ganham e perdem seu sentido, refazem-se diante dos olhos do espectador. Aliás, se há uma crítica negativa que posso fazer em relação à peça é exatamente que, em vez de as cenas irem se construindo gradativamente no palco, elas são interrompidas para que o espaço cênico se recrie. Mas, como disse anteriormente, essa é uma opção do diretor, é intencional. O que quer dizer que, se eu não gostei, azar o meu.

Independentemente de eu não achar necessárias essas interrupções para recomposição do espaço, quando ele se recria a cena ganha novos interesses: o ambiente metalizado é reconfigurado, o constante estalar das cadeiras caindo, as cadeiras de rodas beckettianas, as rodas de Duchamp, as máscaras de Magritte... tudo levando aos mortos, aos desaparecidos, aos tomados no meio do percurso para serem "reeducados". Ou seja, os integrantes do Cubo deparando-se com novas prisões e novas (des)esperanças. Se é que há realmente a espera. Quanto à tão mencionada trilha sonora de Patrick Grant, confesso que vejo duas linhas distintas apesar da ideia criativa ser a mesma: na primeira metade da peça ela apela muito para o suspense, para variações melódicas, para uma desconstrução sonora estridente que por muitas vezes não soa interessante no duelo com o que acontece em cena (manja Tubarão? Não o mote conhecido, mas a extensão dele. Ou, para ser menos pop, Alphaville); na segunda parte ela lida com a repetição, e o faz muito bem. Essa opção utilizada no longo diálogo entre os personagens centrais funciona exatamente pela não variação da linha melódica. Mas, como disse antes, isso é pura e simplesmente uma questão de gosto.

O fato prático é que realmente não interessa que você goste ou não da peça, isso é o de menos. O importante é que ela DEVE ser vista, exatamente por se tratar de um trabalho em que há forte assinatura de seus criadores, em que se aposta na fundação de uma linguagem própria, sem cair nas regrinhas do tipo "como fazer sua família, da vovozinha ao papagaio, bancar os cem contos do ingresso e assistir à peça e aplaudir no final e comer pizza no Bar Mais Perto?"

2 Comments:

  • Parabens Ruy e Parabens Patrick por uma linda resenha. Congratulations to you both for a well deserved review.
    LOVE
    Gerald

    By Blogger Gerald Thomas, at 7:00 PM  

  • querido, obrigado!!! como sempre, carinhoso... saudades.

    By Blogger Ruy Filho, at 2:07 PM  

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