Antro Particular

06 dezembro 2005

SOBRE EMANOEL ARAÚJO: ou a sensação do engano óbvio

Postado na hospedagem anterior do blog na terça-feira, 12 de abril de 2005
04:19:33


Foi breve e longa a permanência de Emanoel Araújo à frente da Secretaria Municipal de Cultura. Breve por não deixar caminhos novos e reparar uma ao menos das infinitas necessidades que cabem à Secretaria. Longa, pois ficara claro, aos gritos microfonados em um encontro na Galeria Olido com artistas de diferentes classes, o tamanho de seu despreparo político. Próximo, possivelmente, apenas ao montante de sua arrogância.

Emanoel é um dos grandes nomes da cultura brasileira, pesquisador profundo e com currículo invejável. Contudo, política não se faz com especificidades ou eruditismo. As mesas e cadeiras da Secretaria Municipal de Cultura são feias, estão quebradas. Indigno? Evidente que sim. As condições físicas são absurdas e muitas vezes ridículas. Porém sintomática, representativa da situação cultural atual da cidade e portanto óbvia. Alguém imaginaria diferente disso? Mas não é este o ponto.

O que se esperava de Emanoel é que seu temperamento agressivo - e há uma diferença fundamental entre temperamento forte e agressivo -, fosse capaz de driblar essas circunstâncias e talvez modificar o pensamento dos gestores e funcionários sobre a importância do trabalho na Secretaria de Cultura. Esta não é um escritório técnico onde o conhecimento específico determina resultados cartesianos. É necessário fundir o lado humano à rotina burocrática, estabelecer vias de sensibilização do funcionário para que consiga de fato enxergar o outro. Uma Secretaria de Cultura estará preparada para desenvolver os seus projetos no instante em que seus funcionários forem capazes de diagnosticar as lacunas na cidade e nas pessoas por detrás de suas vidraças, os vícios corrosíveis, as falsas culturas, os falsos profetas, as manipulações, as legislações burlescas, o jogo, enfim.

Muito discurso e pouco... Infinitas formas de preenchermos as reticências quando se trata da desnecessária gestão de Emanoel.

Desde o início, Emanoel demonstrou não preparar um discurso administrativo e muito menos um plano de governo. É lamentável sua posição acusatória, sendo, sobretudo, o Secretário anterior tão particularmente próximo. Desgastada política de velhos candidatos em agredir e apontar os dedos para velar a falta de um pensamento mais produtivo e emergencial. A prefeitura de São Paulo perdeu a importância de uma transição de governo e partido, perdeu a capacidade organizacional mínima estabelecida, perdeu o conquistado, e pior, perdeu anos de preciosos debates e decisões junto à população. Atacar a Lei de Fomento, indagando sobre a não prestação de contas por parte dos selecionados, seria de todo válido não fosse a tentativa de aniquilá-la. Hoje, mais parece um berro vingativo, e infelizmente a questão é da maior relevância.

Quantas vezes Emanoel deve ter abandonado a coroa de governante e conversado com uma faxineira ou ascensorista ou guarda ou recepcionista? Sabido das dores-de-cabeça dos guardas solitários, das dores nas costas das moças em seus elevadores-prisão, do cansaço nas escadas das senhoras com baldes cheios? Do sorriso maroto na portaria, das piadas e apelidos para cada funcionário, dos brilhos nos olhos assistindo distante um artista idolatrado, das vergonhas tímidas, dos orgulhos em falar "aqui é a secretaria de cultura!"? Isso é CULTURA. Fazer CULTURA. O restante, Sr. Emanoel, é apenas burocracia, decisão, assinatura, telefonema, memorando, reunião, ordem, convenção, política.

Boas-vindas ao novo Secretário, Carlos Augusto Calil. E meus pêsames por herdar de início a descrença e a violência de uma classe que desde já arreganha os dentes.