Antro Particular

02 fevereiro 2006

ELEIÇÕES 2006: Fim da Verticalização: o Brasil nunca exigiu coerência mesmo


Votar é uma obrigação. Teria como lidar com o voto de outra maneira? Em um país com a quantidade absurda de analfabetos? Com a venda e compra de votos, pagos em camisetas, cestas-básicas, sapatos, dinheiro, canetas e promessas, pelas ruas com tamanha naturalidade, feito cambistas em esquinas de estádios? Há, no Brasil, educação política para liberar o cidadão de tal condição? Infelizmente, não. E direito e obrigação se confundem entre o dever cívico e a apropriação política da ingenuidade popular. Portanto, só nos resta votar. E antes que possa parecer estar descontente com essa possibilidade, digo: ao menos, ainda que manipulados por circunstâncias, podemos votar! Escolher nossas vozes no Congresso e cadeiras do Executivo. Eleger presidentes.

Em 2006 definiremos outra vez a quem caberá presidir o Brasil. As opções são muitas, segundo as inscrições. Dezenas de nomes e números. Contudo, poucas, na realidade. E entre os três ou quatro candidatos com reais condições de disputa, como escolher?

Ao eleger Fernando Henrique Cardoso, a classe-média, sobretudo, correu às urnas na tentativa de estabelecer segurança aos seus ideais e interesses. Defendia-se da esquerda petista e da temida revolução de classe, na tentativa de sustentar sua posição. Ao optar por Luis Inácio da Silva, a classe trabalhadora, sobretudo, estabeleceu, na história do Brasil, um porta-voz, sua representação junto ao cargo máximo. E abriu caminho para as necessárias e prometidas revoluções sócio-culturais. Nem lá, nem cá. FHC estabilizou a inflação, mas determinou à classe-média certa submissão aos interesses da elite financeira internacional. Lula revelou-se ambidestro, e a tal política de esquerda por muitas vezes mais se perde ao centro de um vazio revolucionário, sem contexto político e histórico.

Mas ainda iremos votar, e dois são os caminhos para essa escolha: no homem, como com Lula, ou no partido, como com FHC. Para tanto, é preciso que a população seja esclarecida de um primordial elemento: proposta de governo. Quando temos, então, a capacidade de avaliar quais as diretrizes políticas serão adotadas e os princípios em que se baseiam, para confrontar com nossas expectativas e ideologias.

E é exatamente essa possibilidade que agora os congressistas se unem para destruir. A aprovação recente na Câmara, em primeiro turno, da emenda constitucional que acaba com a Verticalização, explicita a vocação dos nossos atuais representantes. A lei em questão, aplicada na eleição de 2002, determina às eleições estaduais a mesma coligação realizada entre os partidos para a eleição nacional. E é contra isso que os deputados se colocam, incluindo nosso presidente: "É melhor escancarar e ver quem é quem neste país, quem apóia quem, quem está com quem à luz do dia, e não você ficar pensando que alguém está com você e, depois, não está. Então, é melhor acabar logo isso e fazer as coisas muito abertas, muito à vontade".

A capacidade de alianças heterogêneas finaliza qualquer importância do partido construir uma reflexão política própria gerando propostas originais que o diferencie dos concorrentes. Vale tudo. Ser contra o partido na candidatura à Presidência, mas a favor para o Governo Estadual. Como é possível ser a favor e contra uma postura simultaneamente? Concordar e discordar? Apoiar e ser oposição?

O que se busca hoje é construir uma maquinaria política aonde o pensamento reflexivo não seja significativo. Importa o poder, o controle, a supremacia de uma suposta governabilidade. Essa, que certamente sofrerá as mazelas da incoerência de suas companhias ambíguas, devedora nas duas pontas de uma mesma corda. Enforcamento inevitável...

Votar em quem? Tanto faz. Serão partes de um mesmo partido, amarrados uns aos outros por condições diversas e interesses regionais menores. Pouco significa o nome do candidato, então, pois sua postura depois de eleito se restringirá aos acordos partidários. Nada representa o partido, já que suas diretrizes se camuflam em acordos contraditórios, conflitantes e momentâneos.

Talvez devêssemos trocar nossas cédulas de votação e urnas eletrônicas dispostas nas escolas, igrejas e clubes, por confrontos de ‘dois ou um’ em praças e parques. Um campeonato nacional... Ao menos nos divertiríamos um instante mais sonhando um pouco com dias melhores, já que os enforcados, inevitavelmente, seremos nós.

1 Comments:

  • Um rápido comentário sobre dois pontos que você tratou: (i) eleições obrigatórias; (ii) ideologia partidária.
    (i) Há algumas teorias que acreditam que uma vez que haja procedimentos democráticos que “chamem” as pessoas à participação, irá forma (em torno desses procedimentos) uma ambiente de discussão e politização. Em tese, uma vez que as pessoas são “obrigadas” a votar, eles iriam informar-se para ver as opções, as propostas etc. e disso decorreria uma população mais politizada e apta à participação no “jogo democrático”. Seria a formação de uma “esfera pública”, para usar a expressão conhecida de Habermas. Ok! Ai vamos para o segundo ponto: (ii) Ideologia partidária – quando há uma tentativa de se entender “quem é quem” no jogo político nacional ficamos com uma bela incógnita. Por exemplo: como que um partido “ruralista”, evangélico, de direita – PL – pode coligar-se com o PT para a PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA? É uma pergunta que talvez nem Habermas saiba responder com sua teoria filosófica, mas Maquiavel apontou há mais de 500 anos, e que a política do “dia-a-dia”, aquela de bastidores, explica rapidinho – queremos o poder, qual o preço? Eu pago! VENDIDO! (Nem precisa falar de “mensalão” e afins…) Coligações das mais improváveis nas três esferas do Estado, além de todas aqueles “apoios” informais ainda mais perigosos… Para as câmeras coloca-se o nome bonito de “governabilidade” (quem eles já não sabem mais o que significa exatamente) e pronto. Problema é que depois todos querem suas fatias e para que lado vai o governo? Ninguém sabe!
    Uma tentativa de organizar: a tal “veticalização”. Durou UMA ELEIÇÃO. “O que? Só porque meu partido está disputando a Presidência contra o do meu Vice-Governador não poderemos mais nos coligar para as eleições no meu Estado? Que absurdo!”
    E assim seguimos: obriga-se à votação mas não explica “quem é quem”. Talvez por que essa explicação fica cada vez mais difícil… No nosso país não se propiciam as condições para o exercício da cidadania (política) porque, se não, começarão a cobrar sua efetiva cidadania (política E SOCIAL) ai eu quero ver – 100 milhões de pessoas, que ganham menos de um salário mínimo, com consciência política?! Isso sim seria um “crise de governabilidade”! Enquanto isso, vamos votando…
    Ahh, aceito o desafio de “dois ou um”… Pelo menos nesse jogo tenho 50% de chances de sair ganhando e, se perder, sei QUEM ganhou…
    Abraços
    RAD

    By Anonymous Regis Dudena, at 10:57 AM  

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