Antro Particular

14 fevereiro 2007

É PRECISO FALAR SOBRE AS COISAS DO DIA-A-DIA

A morte do menino de 6 anos, arrastado junto ao carro, no Rio de Janeiro, por quilômetros, não é novidade quanto à violência existente e latente nas cidades brasileiras, apenas enquanto atrocidade e desumanidade. Uma criança sem culpa. O menino que, dias antes, desenhara sua mão e um coração na lousa branca do quarto novo.

Muito se falou e se criticou dos governantes. É obvio que eles não estão interessados nessas “fatalidades”. O cinismo dos nossos políticos (com exceções em extinção), abrange todas as camadas e quaisquer assuntos. Do governo de São Paulo, ao assumir o conhecimento prévio da possibilidade de desmoronamento das obras do metrô, onde 7 pessoas morreram, ao descontrole inaceitável do prefeito paulista que, aos gritos de vagabundo, expulsou de uma unidade hospitalar, aos empurrões, um inconformado senhor que reclamava seus direitos, e cuja história revelou trabalhar desde os 10 anos, nesse país onde tanto se fala da extinção do trabalho infantil. Isso para nos resumirmos a fatos locais e recentes...

O Congresso reage em retórica e discursos. E em todas as esferas, a unanimidade de não ser este o momento adequado para o reavaliar a legislação criminal, pois estamos todos de certo modo influenciados pelas emoções.

Somente um deputado, este do seleto grupo dos excetos, abordou o assunto com a urgência qual é preciso olhá-lo. Fernando Gabeira criticou aos deputados e magistrados afirmando não ser mais possível esperar o controle da emoção, já que semanalmente somos atacados por novos e horríveis acontecimentos.

Como parece ser difícil aos políticos apreender a realidade do povo brasileiro. E novamente escrevo aqui: sempre o incansável Gabeira!

Habitação, saneamento básico, educação, segurança, emprego, saúde, reformas agrária, previdenciária, política, tributária... Você já ouviu algum político não saber como resolver ou melhorar essas necessidades? Promessa de todos os tipos, partidos e cores sempre existiram e continuarão. Porque são as únicas moedas de troca com o nosso voto. É preciso que esses problemas permaneçam. Sempre. E novas promessas, e novos sonhos e nossos votos. Assim ad eternum.

Sem proposta efetiva, planos de governo, ideologia (insisto ser esse um dos mais relevantes problemas da nossa política), só resta aos nossos congressistas a promessa de soluções miraculosas sobre nossos problemas. As faltas de estrutura e condições são as únicas maneiras de se manterem onde estão.

Paralelamente, o brasileiro, de modo geral, comove-se ouvindo depoimentos e depois os esquece. Outros escândalos, atrocidades cada vez piores virão. E a vida vai seguindo sem rumo, por inércia.

A mídia, instrumento indiscutível de construção e manipulação do imaginário contemporâneo, capaz de eleger e destituir presidentes, pouco se importa. Usa os fatos para obtenção de seus lucros, adaptando a dimensão da reportagem à proporção dos anúncios possíveis em seus intervalos. Abre mão da capacidade que possui em educar e trazer ao comum a reflexão sobre os acontecimentos, que não pelo melodrama exploratório e superficial.

É preciso criar uma campanha abrangente, de longo prazo, para modificar a maneira de se relacionar com os problemas. O brasileiro passou por décadas de descrenças. Nada será suficientemente decisivo para que mude sua postura e distanciamento. Protegemos-nos no isolamento. Apenas uma invasão em massa em sua consciência modificará a apatia consolidada em nossa cultura. E a única capaz de gerar esse diálogo constante com as pessoas, no grau necessário de milhões, é a mídia.

Publicitários, estúpidos com suas campanhas românticas ou cômicas, ainda não entenderam que valorizar a discussão e reflexão pode ser uma saída estrategicamente lucrativa para todos.

Se por um lado temos a baixa qualidade dos programas televisivos, a apelação de apresentadores mais interessados no espetáculo grotesco do discurso agressivo; se a televisão pôde caminhar para a desmoralização de seu conteúdo, crescentemente, e isso a colocou em roda-viva com as expectativas do público por baixarias e superficialidades, então por que não acreditar que um movimento oposto também pode ser produtivo e lucrativo?

Escrevo televisão, mas leia-se mídia, já que iguais são as situações das rádios, revistas e jornais.

Por que não começar uma campanha oferecendo programas mais profundos, de maneira suave e compreensível ao mais despreparado leitor/telespectador, transformando as discussões em momentos prazerosos, condicionando os anunciantes à igualmente participarem da campanha reavaliando a apresentação de seus produtos, de maneira consciente e conseqüente? Um moleque de rua de havaianas? Um posto de gasolina em uma favela sem carros? Mendigos dentro de bancos?

Utopia minha?

Pode haver um tom positivo nisso tudo. Por quinze, vinte reais você pode calçar o moleque da esquina enquanto as sandálias ganham em venda e realizam uma campanha pública sobre saúde com moradores de rua, com parte do lucro obtido. Ou os postos BR desejarem a todos condições melhores de vida sonhando com o dia em que todos poderão ter seus carros para poder estar mais próximos de hospitais e parques, e que como ação ajudam os Governos nas obras de saneamento básico, asfaltamento de ruas e planejamento e conservação de áreas arborizadas em escolas, por exemplo. Ou bancos defendendo o direito à cidadania a todos, e que abrem suas portas a analfabetos oferecendo seus estabelecimentos para que, com professores voluntários e seus funcionários, aprendam ao menos ler e escrever seus nomes, possibilitando que seus documentos sejam feitos, e possam enfim ser oficialmente reconhecidos como cidadãos...

Idéias imbecis, talvez. Ou não. Sei lá...

Quem não teria, no mínimo, a curiosidade de saber quais os anunciantes que comprariam a idéia ou de acompanhar como fariam para lidar criativamente com essas novas condições de apresentação de seus produtos?

Qualquer mudança de comportamento gera curiosidade. Isso é um fato. E pensar na espetacularização do discurso benéfico pode ser uma saída aos meios de comunicação e para todos nós.

Sou a favor de ações radicais, desde que não sejam imposições.

Ontem, durante o Fantástico, tive a certeza, por um segundo, que veria pela primeira vez a maior rede de televisão do país fazer um minuto de silêncio, ou deixar uma imagem negra em nossas telas durante seu horário mais caro. Triste decepção minha. Vieram os comerciais com loiras siliconadas vendendo cerveja e a programação retornou para falar sobre futilidades em geral, com seus temperos doces e engraçados, como que nos dizendo: “foi muito triste tudo isso, fazer o quê? Vamos esquecer, alegrarmo-nos e olhar para o futuro”.

Qual futuro?

E o que fazer, então?

Eu não sei. Sinto que a responsabilidade aumenta a todos os dias para todos nós. Já que os políticos estão preocupados cada vez mais com suas próprias vidas.

Esse texto, em um ato de desespero vai encaminhado ao único publicitário brasileiro qual considero lúcido, Washington Olivetto. Sem expectativa alguma, apenas esperança...
arte gráfica: Patrícia Cividanes

4 Comments:

  • eu tenho esses pensamentos e essas mesmas revoltas diariamente. acho que vou voltar a meu lema de quatro anos atrás; viva o anarquismo. voltarei a escutar sex pistols. to puto. não usarei letras maiusculas
    abraço
    pancho

    By Anonymous Anônimo, at 9:15 AM  

  • Ah, meu querido .. que bom ver tanta lucidez e otimismo ... que pena você ter razão ...
    Leninha

    By Anonymous Anônimo, at 9:07 PM  

  • parabéns Ruy! Texto muito bem escrito! lúcido! bjusss

    By Anonymous mel, at 3:27 AM  

  • Olivetto?
    Hum, Como os outros...
    Bem, Ruy, o que temos, na verdade, é um problema mundial. Como é dito no filme (e no livro) "O Ponto de Mudança", de Kapra, o que acontece é uma "crise de percepção do todo". Enxergamos as coisas de maneira fragmentada. Como a mídia influi bastante na consciência da massa, então a mudança deveria vir em massa na mídia, e tb na publicidade. É difícil? É, muito! Mas também acredito ser possível. Só assim, com uma mudança com data e hora marcadas pra acontecer, podemos realmente mudar de atitude (sim, todos nós somos responsáveis mesmo).
    Abração.

    By Anonymous Edu Semerjian, at 9:43 AM  

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