Antro Particular

25 abril 2007

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DO VAMPIRO: absurdos de um espetáculo que não existe

Inevitável desassossego. Muitos me perguntam, entusiasmados pela polêmica, ou com o prazeroso olhar de provocação, sobre como leio a pública pendenga entre Gerald Thomas e Felipe Hirsch. E, entendendo em alguns casos particulares a relevância do meu parecer, nada mais me restou a não ser assistir ao espetáculo Educação Sentimental do Vampiro, do diretor curitibano. Antes, contudo, das conclusões, é preciso voltar ao tempo...

Minha aproximação e amizade com Gerald fundamentam-se em um simples aspecto: respeito. Vocábulo abandonado no cotidiano em geral, fez-se ao tempo sentido maior da relação que se estende hoje já há oito anos. Uma década, diria eu, portanto, tendo em vista aspectos de simpatia artística e conceitual que impulsionaram minha vontade de aproximação. E lidamos dessa maneira um com outro. Olhando nos olhos. Divertindo-se. E no meu caso, apreendendo um sabor amargo de realidade só encontrável nos mais disponíveis professores. Defino-o assim: de ídolo a mestre, deste a amigo. E meio pai-irmão distante em seus discursos afiados a me sussurrar caminhos e acusar desvios.

Por isso e os trabalhos passados, em todos os cantos pipocam pessoas a me pedir opiniões. Ora, Gerald é adulto e capaz de defender-se sozinho, o que o faz sem ajuda de qualquer outro. E deixo ao lado irritados os irritantes que me cutucam nos bares e ruas, com seus dedos a me apontarem, seus desapontamentos em minhas faltas de respostas. Danem-se todos. Afinal, Gerald mantém na rede um blog, então que escrevam e perguntem a ele, ora.

Infelizmente não é isso o acontecido, e as indiretas e sorrisinhos de canto continuam cínicos a me encontrar com suas conclusões, acusações, comparações a se sucederem repetidas e cansativamente.

Há em Gerald um pouco de Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Wally Salomão, Zé Celso, dos poetas malditos, das putas ofendidas. Línguas inquietas, repletas de olhares sobre a vida, com verdades vividas nas ruas e não só em livros, da experiência da revolta praticada, da contra-revolta, lançando aos microfones gritos, berros, urros, na tentativa de trazer ao mundo mais do que palavras. Vão além, no atingir pelo ouvido os cérebros, os sentidos ao dar sentido, e se fazer meio e nunca fim. Incomodam na verborragia desrespeitosa do pensamento pessoal, da reflexão diária em formato de interferência incoerente juvenil.

Tudo o que mais respeito em alguém de alguma maneira passa por esse estado de consciência em ser transparente.

Volto, então...

As acusações e ataques entre os diretores foram construindo ao redor um espectro grotesco da falta de referência histórica e avaliação crítica sobre a montagem em si. Surgem defensores e agressores de ambos os lados. Nada se diz, enquanto a platéia foca na polêmica pelo simples prazer em tomar uma posição ainda que esvaziada de conteúdo analítico objetivo e fundamentado. Ficam por aí gritando quem odeia, sorrindo quem se satisfez. Até que um novo assunto surja e tudo simplesmente desapareça das páginas da internet e jornais e ruas. Feito boato velho, sem utilidade e qualquer valor.

Fui ao teatro do Sesi disponível ao que fosse, sem me ater às discussões entre os dois. Esforçando-me para abandonar pré-julgamentos. Determinado a assistir de maneira íntegra aos códigos de criação.

Dados os três sinais, a expectativa.

Luzes apagadas. O abrir das cortinas. Fumaça. Painéis labirínticos fatiavam o espaço em colunas verticais que ocupavam toda a altura da imagem. Música, uma melodia instrumental em tom de orquestra clássica. Luis Damasceno surge por detrás de um dos painéis e segue ao centro do palco enquanto a luz revela gradativamente cenografia e ator. Um amigo me cutuca e sussurra: “é absolutamente igual!”. Refere-se à montagem de Um Bloco de Gelo em Chamas, espetáculo de 2006, de Gerald, com o mesmo Luis no papel principal.

A neutralidade com a qual preparei-me para assistir a peça, esvaiu-se em pouco menos de um minuto. Sinto uma mescla de incredulidade e inconformismo. Percebo estar em choque e pânico, constrangido pelo ridículo dos atores, pelos conhecidos na platéia e a certeza de saberem eles os meus pensamentos. A peça continua. Vem mais coisa por aí. Trilogia Kafka, Carmen, M.O.R.T.E, O Império das Meias Verdades, e até mesmo Um Circo de Rins e Fígados. Há um pouco de tudo em tudo. Todo o tempo. É como se assistisse a uma redução simplória a meros efeitos dramáticos pinçados dos espetáculos de Gerald. Um panorama ingênuo e distraído de duas décadas de teatro.

A cenografia de Daniela Thomas retrata a redundância e falta de criatividade com a qual vem realizando suas criações atuais. Mais para gigantescas instalações, sem muito acrescentar aos espetáculos. Pelo contrário. Disputando estética e narração com a cena, tais cenários acabam por distrair o público em efeitos, que no caso de Felipe, sobretudo, juntam ainda a desnecessária utilização de vídeos-projeções que pouco ou quase nada oferecem a um discurso híbrido.

Daniela se apropria do repertório plástico criado em parceria com Gerald Thomas, nos muitos anos de trabalho em conjunto. Talvez por se ver igualmente proprietária sinta-se à vontade para se autocopiar. Cópia da cópia vista na recém aberta exposição sobre Clarisse Lispector, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, com semelhantes módulos-tapadeiras-espelhos, tais como no espetáculo em cartaz. Recordo-me de Platão. A cópia como inferior ao original. A arte como cópia da cópia. Entretanto arte não mais existe. Como se o filósofo brincasse em uma máquina xerox, Daniela esquece o elemento primeiro para criar, e sem o qual nada se justifica ou surge, nasce e existe: imaginar.

Ainda que monótonas, os rostos projeções revelam outra instigante coincidência ao lembrarmos das gravuras de Evandro Carlos Jardim, para as reedições dos romances de Dostoievski, pela Editora34. Mesmas poses, semelhantes traços, aparecem e somem povoando a cenografia durante toda a peça, representando as emoções e sensações dos personagens quais assistimos. Evandro, um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, não está citado nem em referência nem em homenagem. Ficam os rabiscos como feitos de originalidade, e sua redundante maneira de querer convencer o público a acreditar no não crível.

Enquanto as 12 cenas que o compõe são apresentadas monotonamente por uma encenação no mínimo ingênua de tradução simultânea dos contos em ações, quase sempre sublinhadas pela narração de um ator mais ao lado ou em narrações em off, muito fica a se questionar.

Não há objetivamente outro interesse nas cenas que não a figuração dos contos, assim como não há uma conceituação da interpretação expressionista que a justifique, há não ser enquanto estratégia de trocadilho com o vampiresco apelido de Dalton Trevisan, atraindo outras citações, como Nosferatu, de 1922, de Murnau. Os atores permanecem aprisionados nos desenhos corporais típicos, enquanto a direção parece esquecer que o expressionismo tem também sua linguagem no teatro moderno. E ainda que alguns associem a estética do trabalho com a produção de Tadeusz Kantor, pouco ou quase nada se vê do trabalho desenvolvido pelo Cricot 2, apenas simplificações óbvias de quem com tal proposta não tem muito para onde ir.

No final, a sensação de ser a Sutil Companhia de Teatro outro grupo amador, contudo financeiramente abastado, sem proposta própria filosófica e artística.

O berreiro de Gerald não ocorre pela mera apropriação de suas obras, mas pelo reconhecimento de uma carreira que muito acrescentou à cena brasileira e internacional. Fora ele, e ainda o é em muitos aspectos, o responsável pela modernização do teatro pós-Antune/Zé Celso, ao introduzir o discurso de uma cena construída pela narrativa plástica e associações sígnicas, entendendo o ator como potência de elaboração imagética, em uma compreensão mais ampla de imagem. Algo que hoje semiótica e estudos sobre corpo discutem com certa facilidade. Gerald flutuou nisso há mais de vinte anos. Abriu um longo caminho estético pertinente até nossos dias. Incorporou o discurso da urgência política, da contradição dos fatos, da violência moral ridícula que nos assola. Gostem ou não, ele o fez. Transportando cena e dramaturgia a novo patamar, estabelecendo outros paradigmas. Redigindo uma historia conjunta com o movimento teatral.

As desavenças e desaforos entre Gerald e Felipe devem sim ganhar destaque no circuito teatral. É preciso enfrentar os padrões consolidados na cena artística brasileira, em muitos casos meros instrumentos de repetição e apropriação mercadológica. Todos temos direitos iguais, e defendo a liberdade do artista ao seu potencial criativo, porém, sem o assumir referências, tais posturas nos revelarão plagiadores, imitadores, aproveitadores da ingenuidade popular. Gênios são eleitos por todos os cantos nesse país. Muitos correm por isso. Grande parte, na verdade, sobrevive em respeitos forjados por mentiras e manipulações.

Usufruto político de alguns, capacidade industrial de outros, influências pessoas, camaradagens estratégicas, possibilidades mercadológicas, escambos diversos. Nada de novo na maneira como a Cultura é elaborada. Desde sempre por aqui é assim. Mas, seja como for, o silêncio cúmplice da crítica e artistas conduzem cada vez mais ao desaparecimento o artista-criador com sua visão de mundo própria e caminhos a serem desbravados.

Talvez esteja eu apenas nostálgico de um específico tipo de artista. O imaginado quando decidi esquecer a medicina e me aventurar por essas estradas. Homens de outro tempo. Feito Gerald e tanto outros. De vozes fortes e verbos ácidos. Mãos inquietas e dedos em riste. Aqueles de quem tanto ouvi falar no cada vez mais longínquo século passado. Porque os destes, os novos, os que surgem a todo instante como criações da mídia, não podem ou devem ser realmente levados tão a sério.

11 Comments:

  • É muito chato passar a vida atrás de uma linguagem (seja ela escrita, falada, encenada etc), que sai é das entranhas do artista, para ver, de repente, sem mais, nem menos, alguém se apossar dessa linguagem, por "experimentação". Quem não viveu o processo - que é pessoal e intransferível - pode até copiar, mas jamais conseguirá extrair do que não tem, aquilo que tenta demonstrar. Nem no mundo dos negócios isso deveria ser aceito. Na verdade, vivemos a era dos clones, e seus séquitos. Só que a arte, a arte mesmo, continua pertencendo - por direito adquirido diante de um processo próprio - a poucos.

    By Anonymous Ana Peluso, at 3:55 PM  

  • ...e a palhaçada continua... quem inventou isso ou aquilo, e blá bla´blá...
    isso me irrita...
    o ego de quem é maior do que de quem... porque no fim de tudo só resta egos. eles estão velhos... já não conseguem mais se reinventar e declaram que a primeira invenção foi deles...
    e quem inventa alguma coisa hoje em dia? eu posso pensar em algo aqui e simultaneamente alguém pensar em algo muito parecido do outro lado do mundo.
    Enfim, acho que essa polêmica discussão de egos nem devia estar na boca do povo... ela não diz respeito a arte e sim a posse. E ao meu ver arte não é Posse.

    By Anonymous ..., at 12:24 AM  

  • Sem entrar na discussão se o autor imitou ou não Gerald Thomas, mas sua explanação sobre cópia e imitação foi excelente. Lembrou-me até alguns escritos de Walter Benjamim. Abraços

    By Blogger O império das causas perdidas, at 1:16 AM  

  • Ana,

    Concordo com você em tudo. Mas na verdade não vejo como problema a cópia, mas a cópia sem destino, sem que se vá além ao menos em discurso. Apropriar-se de uma estética e/ou conceito requer um posicionamento sobre o mesmo.
    Infelizmente, assistimos a uma época em que a cópia busca trazer ao copiador o reconhecimento pelo que não é seu. Quem sofre com isso é a arte e a história, porque o público continua por aí sem memória e sem se importar com que o representa.
    Beijos, querida.

    By Blogger Ruy Filho, at 2:18 AM  

  • Caro "...",

    Talvez não seja uma questão maior de egolatria o não assumir referências e ter para si originalidades não pertencentes?

    Por que é tão problemático dizer "sim, parti da obra dele...", "sim, ele me influenciou em algum momento..."?
    Abraços,
    RUY FILHO

    By Blogger Ruy Filho, at 2:20 AM  

  • "império",

    Não sei se fico lisonjeado ou temeroso. WB é sempre uma referência a todos nós. Ser comparado a ele, em qualquer instância que seja, faz-me pensar sobre a responsabilidade do que escrevo.
    Abraços,
    RUY FILHO

    By Blogger Ruy Filho, at 2:24 AM  

  • Olá,

    Parabéns pelo seu blog! Muito completo e com bom conteúdo.
    Nós aqui do Tuca gostaríamos de saber se você se interessaria em publicar as peças e atividades aqui do teatro. Se tiver interesse, pode entrar em contato pelo email tucaimprensa@pucsp.br, ao cuidados de Luísa Bittencourt.

    Agradecemos a atenção.

    By Anonymous Teatro Tuca, at 10:12 AM  

  • RuY,
    vc escreve cada vez melhor.

    By Anonymous Geondes, at 12:21 PM  

  • O espetáculo não existe na sua cabeça doente e invejosa. Alí trabalham artistas que dão a alma pelo que fazem, mas com certeza você não sabe o que é isso. Pelo jeito você deve ser um pseudo-ator frustrado e sem talento. E também covarde. Dúvido que coloque esse comentário no seu blog.

    By Anonymous Anônimo, at 8:41 PM  

  • Caro, anônimo!

    Em momento algum no meu texto questiono a alma dos artistas que trabalham no espetáculo. Estabelecer uma visão crítica sobre a produção atual da Daniela, por exemplo, ou questionar a não referência a influência de outros trabalhos e artistas, não significa que desrespeito os atores e outros.

    Há uma distância enorme entre as duas coisas.

    Tampouco meu pensamento se constrói em invejas. O faço a partir de referências históricas e das quais participei, seja mais internamente seja enquanto espectador.

    Me surpreende sua defesa vir por ataques e não por idéias, o que seria próprio de quem tem conceitos a defender. O que me leva ainda há mais a crer que de fato muito pouco foi justificado. Do contrário, seria outro o seu discurso, não acha?

    Enfim, ficam seus desafetos na troca de um diálogo mais positivo.

    Pode ser estranho pra vc, mas esse dialogar é possível. Veja aqui nos meus textos o que aconteceu com minha crítica sobre o Mais Quero Asno. Foi na troca de informações e defesas, de ambos os pontos de vistas, que chegamos a um desenho intermediário entre crítica e réplica.

    E, desculpe, não sou um ator frustado. Essa acusação infantil só faz que a classe dos atores seja menosprezada pelo ridículo no acreditar serem os atores iniciantes ou que não chegaram ao estrelato invarialmente invejosos.

    Quanto ao que chama de covardia, bom, o anônimo não sou eu!

    Faço questão de deixar esse seu comentário inclusive como um exemplo mais amplo de que tais posturas não serão futuramente incluídas no blog. Aconselho aos que assim preferem agir que criem os seus!

    Não sendo produtivamente discursivo, não há porque acrescentar aqui.

    DIÁLOGOS!!!!!!!

    Certamente você deve ser novo como eu a ponto de ter lido os artigos entre concretos e neo-concretos nos jornais paulistanos e cariocas, décadas atrás. São esses sempre uma referência para mim de que o diálogo crítico fundamentado em justificativas conceituais podem levar não a uma verdade absoluta mas ao formulamento de um pensamento crítico maior.

    Que pena, perdeu vc seu tempo e o meu, e perdemos todos em profundidade!
    RUY FILHO

    By Blogger Ruy Filho, at 2:19 PM  

  • Bélissimo tapa com luva de pelica RUY! Muito Bom!
    Beijos

    By Anonymous Ju Petrilli, at 1:08 PM  

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