Antro Particular

04 maio 2011

pra quem não tem medo de escuro

Acontecimentos recentes levaram a me trancar em uma espécie de solidão, certo porão onde fui obrigado a encarar a cegueira que, até então, dava conta de esquecer o óbvio em troca do pragmatismo da crença de que é possível existir artista sem outras motivações que só a arte. Ingenuidade minha, a crença de que a arte serve a um propósito sobre o outro, de que o que lhe cabe está no diálogo com quem se debate, revelou-se, cruelmente, no servir a um propósito sobre si mesmo. Onde estão os artistas que acreditam servir anarquicamente a toda sorte de desconstruções e desordens pela mera importância de se chacoalhar os valores e dilemas estabelecidos? Se foram. Estão velhos como eu. Os novos artistas se fundamentam em relações tão frágeis de argumentações sobre si que o transitório, pra não dizer volúvel, mais parece preceito do que consequência. A relatividade do tempo tomado pela urgência de resultados, ou o imaginado como, impõe condições de convivência e produtividade irreais daquilo que se deveria entender arte.

Primeiro porque não cabe ao artista colecionar resultados, mas somar, na concepção de proposições, um discurso que permanecerá aberto e acessível; faz-se pela necessidade em fazer, e não por reconhecimento ou qualquer outro valor. Como localizar, então, os artistas atuais? A expectativa do resultado pressupõe um fazer destinado ao contentamento de si mesmo, ao reconhecimento pelo outro, ao produto e não ao processo. Distoa o tempo nessa urgência líquida, como diria Bauman, onde o próximo se faz mais interessante, onde as relações se comprometem mais pela justificativa do que pelo objetivo, levando a uma perigosa inversão na ideia de sujeito. Zizek já discursou sobre tal inversão de nossa percepção no contemporâneo. Passamos o Eu ao centro do discurso nos esquivando de perceber que sujeito é aquele que se sujeita. Essa sutil transposição do Eu para o centro justificativo da ação está no homem comum e está igualmente nesses artistas, já que é inevitável pertencer ao tempo em que se vive.  No momento em que a justificativa supera o objetivo e o sujeito se torna face própria, o artista se transforma em uma espécie de bolha isolada em si mesma, não permeável, disponível apenas aos seus próprios interesses, enquanto se centraliza na ação e responsabiliza ao entorno a necessidade de seu existir.

Sou velho, já disse. Não acredito nesse artista e me corrijo quando me percebo transitar por tais estados. O artista que busco em mim e no outro está mais disponível a ilusão de um objetivo injustificável, determinado a exercer sua existência como uma espécie de provocação inútil, e não no profissional estruturado em funções precisas e metas contratuais. A perda da identidade do artista se dá, na geração mais nova, sobretudo, pela compreensão de que lhe cabe uma função, um papel, de que sua ação ou discurso é o valor de seu reconhecimento, como se seu existir artista fosse, antes de tudo, uma necessidade do outro. A idolatria do sucesso, a midiatização do reconhecimento, a produtificação do resultado levam os artistas a acreditarem que tudo existe para si. Pelo contrário. Artistas são frutos da ausência do outro e buscam no outro os caminhos para se encontrar alguém. Ser artista é, antes de mais nada, a incapacidade em escolher como ser alguém dentro do que permite e determina a estrutura comum. Ser artista, portanto, não é ser especial, mas incomum, naquilo que o distingue de qualquer ideia de pertencimento social.

Um artista que funciona em horário comercial, que nega a trajetória como construção paradigmática (quando a ação é processo e não produto)  será de fato um artista? Subir ao palco não é fazer arte. Subir ao palco é a manifestação concreta da oferta de um produto qual se denomina por teatro, por exemplo. A arte está anterior a isso. Existe no caminhar, na escolha do próprio produto ofertado, na percepção de ser preciso oferecer mais outro, pois qualquer resultado não dá conta de solucionar a inadequação do existir em todas suas camadas. Enquanto os artistas jovens se incomodam com os fazeres, compreendendo processo como monotonia, no fundo, esquecem de que é exatamente aí que o artista se consolida. Do contrário, o que resta é um bom ou pior, eficiente ou não funcionário à serviço de uma função. Mia Couto escreveu em um artigo recentemente que as novas gerações estão mais disponíveis ao emprego do que ao trabalho. Assim também os novos artistas. Quem não quer um salário ou um sustento? Quem não quer ter horários certos, tempo livre para ser usado ao sabor de outras vontades? Quem não quer ter o direito de exercer apenas o que lhe cabe como obrigação? Difícil encontrar disposição contrária a isso tudo, tanto quanto é difícil encontrar artistas verdadeiramente.

O artista qual reclamo enxerga que a arte, muitas vezes, não é a estrutura salarial ou de sustentação da pessoa, visto que a arte, diferentemente do entretenimento, possui pouca importância no cotidiano. Esse artista, tal qual imagino, faz de seu tempo o laboratório de sua arte, entendendo que a dedicação não se impõe obrigação, mas necessidade de ir além de si mesmo. Na verdade, o que mais se tem hoje não são artista, são profissionais da arte, empregados da arte. E o que parece escapar dos jovens é que o trabalho pode se revelar seu emprego sim, só que, quase sempre, a crença ou a paixão ou a necessidade de se observar, seja lá como quiser entender, é o elo entre as duas coisas. Não acredito em um artista empregado, obrigado, burocrata por profissão. Permaneço romântico e ingênuo crendo apenas naquele que torna sua necessidade de fazer, de criar, de trabalhar, a própria respiração, a própria existência. Coisa de velho, talvez, você dirá, de quem, romântico, pertence a outra época. E aí chegamos ao segundo ponto.

De volta ao porão qual me tranquei, o escuro do entorno, de onde suponho estar sozinho, leva a perceber que a solidão em si não existe, tanto quanto o escuro que me impede de ver o outro. Agamben vai traduzir parte desse escuro na busca por compreender o contemporâneo. Em sua palestra, demonstra que o escuro que vemos ao fechar os olhos não é a ausência de luminosidade, mas a produção de células específicas que atuam no processo cognitivo levando o instrumento biológico a enxergar assim. Goethe vai produzir o negro na mistura de todas as cores, contrariando a lógica física do branco como resumo da soma dos matizes. E de certo modo, ambos dão pistas de que escuro é esse qual me encontro, tornando mais fácil reconhecer o tal porão.

Define Agamben o ser contemporâneo como aquele que consegue pertencer ao seu tempo sem estar plenamente coincidente a ele, permanecendo seu olhar fixo ao tempo para enxergar a obscuridade própria de sua época e ser capaz de traduzi-la frente a outros tempos. A escuridão, essa fuga da luz (conhecimento e observação comuns) sombreia a realidade de modo inerente ao seu existir, e o artista contemporâneo nada mais é do que o vivente nessa sombra, deslocado da realidade explícita, cujo discurso se manifesta por instrumentais estéticos. Era por isso que Goethe reconhecia no negro a soma de tudo. Por estar nele a informação comum do tempo em que se a enxerga e as arestas imperceptíveis para quem se mantém limitado a estar no centro. Quando encaro meu porão descubro que a solidão é inerente a qualquer tentativa de ser de fato artista. Não cabe coletivizar aquilo que se dá na descoberta pessoal, porque poucos autodenominados artistas se interessam pela construção de discursos injustificáveis. Parece que o único foco para os jovens artistas é mesmo a iluminação de suas capacidades e suas felicidades, enquanto me pergunto, como pode ser feliz um artista, ao passo que, por si só, sê-lo é a própria manifestação de incompreensão e descontentamento de sua existência no mundo como se revela?

Se o filósofo estiver certo, então estar nesse porão é inevitável e digno, antes de tudo, e se me coloco artista, então, necessário também. Se o poeta acertar, há na escuridão que me rodeia a presença de tantos outros como eu, disponíveis a agir pelo objetivo de traduzir o contemporâneo pela sua face nebulosa e escondida, ainda que isso implique em mais trabalho do que emprego, mais ocupação do que salário, mais tentativas do que reconhecimentos, mais solidão do que diálogos. Mas, afinal, do que valeria ser artista se não fosse por isso mesmo, por essa tentativa de encontrar a si no outro e traduzir a todos de maneira irresponsável e paradoxal? Fico aqui esperando conseguir enxergar no escuro outros rostos como o meu. Ainda tenho esperança de que isso possa acontecer. Por enquanto, as máscaras se descolam e cada um segue pra onde lhe toca o desejo. Muitos banham-se de luzes. Prefiro permanecer doído, responsável e absolutamente no escuro. 

7 Comments:

  • Apesar da falta de lógica, temos mais em comum do que as propriedades resultantes da dupla cadeia estrutural helicoidal de aminoácidos. Suas argumentações, vetorialmente canônicas, formam uma base para um espaço linearmente independente, onde nenhuns dos seus elementos atuais combinam com outros. Entendo como porão, o conjunto vazio presente nesse espaço vetorial. O problema com a existência das relações lineares é que vivemos, nós artistas, em um mundo não linear. À primeira vista, a não linearidade é anárquica e desconstrutiva. Com efeito, um desdobramento singular fractal e multidimensional ordena este aparente sistema topológico dinâmico holístico hamiltoniano caótico. O caos se organiza de forma instintiva. Se do caos temos a ordem e da ordem voltamos ao caos, por que não nos contentamos criticamente com os indícios das possíveis influências que transformarão as próximas expressões artísticas? Porque para que um artista observe sua próxima expressão com significância, necessitamos que ele desenvolva uma percepção do Todo visto de uma dimensão fractal diferente da que sobrevive cada ego no planeta. Assim, o artista egoísta e intelectualmente analfabeto, daria lugar a uma explosão de argumentações sustentáveis, onde a ordem se manifestaria através do interesse coletivo pela desconstrução, característica fundamental da transformação de um processo dissipativo em um sistema dinâmico conservativo, urgentemente necessário para a nossa continuidade.
    Quanto ao fato de você estar velho, é só uma questão de onde colocaremos a origem desse sistema referencial inercial... Abraços. Saudades.


    Abeia

    By Anonymous Abeia, at 7:57 PM  

  • abelha, também estou com muita saudade de vcs.
    agora, sobre seu comentário, confesso que não entendi patavinhas! rs. matemático demais.

    vou tentando responder quando as coisas clarearem.

    sobre o matáfora do porão, vale ler Bachelard sobre a poética do espaço. porão, como usei, é mais uma metáfora poética de me sentir acuado em uma ambiência quase que esquecida e proibida. lugar escuro onde guardamos nossos restos, nossas memórias e tudo mais.

    beijos

    By Blogger Ruy Filho, at 8:30 PM  

  • Gostaria de comentar mais aguçadamente. Vi muitos aspectos e seu texto é longo, de estudioso, pre-ocupado com o tema do ser artista. O artista é alguém incomum, irreverente, não porque faça tipo, mas porque tem algum "estigma" ou natureza que o faz mais humano, fora do "normal" aceito. Abç
    Camilo
    Acese-me tb pelo email quartarollo.camilo@gmail.com ou www.camilocronicas.blogspot.com

    By Anonymous Camilo Irineu Quartarollo, at 6:30 PM  

  • Oi, professor Ruy.
    É sempre muito bom ler os seus textos, pensar as suas reflexões, por mais difíceis que sejam.
    Complexas essas questões relacionadas à suposta função da arte e do artista.
    Penso que a teimosia artística, deva prevalecer: frente ao mercado, frente às falta de dinheiro, frente ao não-reconhecimento, frente às incertezas e angústias. Dos outros e nossas.
    Se a via mercadológica norteia a trajetória de muitos,imprimindo suas características e facetas que amarram a arte dos envolvidos a outras demandas, ainda acho preferível o ócio oswaldiano, oposto ao neg-ócio, o que implica uma postura macunaímica, mas nada preguiçosa.
    Um viva à resistência: seja a que vem das ruas, dos palcos ou dos porões.

    Um grande abraço,

    Mei

    By Blogger Mei Hua, at 3:11 PM  

  • obrigado, camilo. apareça sempre...
    abraço

    By Blogger Ruy Filho, at 8:26 PM  

  • Mei, querida, que bom tê-la aqui. Fico feliz. Nossas conversas em sala deixaram saudades. Apareça.
    beijos sempre...

    By Blogger Ruy Filho, at 8:28 PM  

  • Como viver é difícil... (Grande Sertão Veredas)num mundo onde a diferença anda tão igual.
    Reconheço-me em seu escrito, me sinto no escuro e com dificuldade de enxergar os outros que supostamente estariam interessados em compartilhar um tipo de arte, ainda que isso não gerasse lucro, não tivesse utilidade visível, não fosse simplesmente um produto.

    Sinceridade e/ou análise pessoal nunca foi o forte do crítico, acho que realmente anda transitando por outros caminhos, que o deixaram menos acirrado com o debate do hoje e mais preocupado com o seu papel, e com um pensamento bem mais filosófico sobre o papel do artista... estou orgulhosa, aluna orgulhosa do professor!!!!

    Luiza Novaes

    By Blogger luluzinhagorda, at 1:15 PM  

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