Antro Particular

22 julho 2011

OTRO: já olhou para o lado hoje?

Há o de lá e o daqui, ele e eu, e entre esses ou nós, de alguma maneira, constitui-se um princípio evidente da construção das relações contemporâneas: perceber. O que não é igual a reconhecer. Perceber o Outro não obriga a dimensiona-lo a sua aceitação, muito menos reconhecer sua igualdade ao todo comum. Sobretudo, porque no contemporâneo, conceitos como igualdade, totalidade e comum foram multifacetados por interpretações tão díspares quanto às conveniências daqueles que as formularam.

Mas, ainda assim, há o eu e o ele. E isso é fato. Goste ou não. E perceber esse Outro, alguém que não sou eu, revela-se assumir a pluralidade incômoda da convivência obrigatória. Via de regra, o Outro, por ser quem é e estar onde está, é menor, desnecessário, inferior. O inevitável consolida outra qualidade de valor: tolerância. Assumir Outros, portanto, expõe a necessidade de permitir seu existir.

É preciso admitir que tal relação só se efetua com as duas extremidades do processo: quem tolera e quem é tolerado, ainda que vivenciem ambos os papéis  simultaneamente, revelados os lados somente pelo ponto de vista de quem observa e julga. Tolerante e tolerado, o homem contemporâneo encontra-se irremediavelmente aprisionado a ser sempre o Outro. Outro de si mesmo, por conseguinte. Outro de todos e de ninguém. Esse Outro, agora, sujeita-se ao seu existir mediano, impreciso, anônimo, atrofiado e irrelevante. Condição inerente passível de ser modificada na relação social se for elevada ao reconhecimento público, quase sempre uma desconfiguração de sua persona, alguém cujo existir não deve e nem pode ser confundido com os demais. Não que isso seja fruto de qualquer valor real. Ao contrário. Quase sempre, esse Não-Outro carrega a inexpressividade dos Outros anônimos, portanto tolerados e inúteis; resignifica a possibilidade de um futuro independente e aparentemente livre àquele que alcançar o estágio de ser alguém por si só.

Reconhecer a importância de encontrar o Outro define a falência de nossa capacidade em meramente tê-lo como realidade absoluta, qual, por tamanha naturalidade, não deveria sequer ser percebida. Respiramos sem pensar no ar e como o oxigênio nos torna vivos, mas somos incapazes de ter o Outro sem o reconhecer todo o tempo. De modo geral, precisamos dele para dar sentido a nós mesmos.

Na cultura contemporânea a busca pelo Não-Outro distorce a necessidade do sujeito ser uma evidência concreta. O Não-Outro registra-se na futilidade da supremacia de sua exposição, como sendo outro do que puder ser duplicado e explicado pela simplificação do novo, fadado que está pelo sucesso relâmpago, ao consumo desmedido de suas realidades, limitado ao cinismo de suas tolerâncias. Mas só é capaz de tolerar aquele que se entende superior ao tolerado, diriam Habermas e Derrida, em “Filosofia em tempos de terror”. E aí precisaremos, então, enfrentar certos dilemas mais incômodos.

A solução, se é que há, pressupõe desdogmatizar a tolerância de atributos maniqueístas e permitir ao Outro, esse alguém ao lado ignorado e tolerado, que se imponha da maneira mais independente e pessoal que puder. O que não é fácil, visto que sem a tolerância as responsabilidades são infladas a níveis insuportáveis. A ação do Outro limitar-se-á a percepção de suas ações sobre os demais, e a circunscrição a qual se submeter determinará mais que as próprias ações, mas a extensão de sua existência coletiva. Mas, enquanto o homem não consegue desconfigurar a sociedade do peso moralista, resta assumir o Não-Outro como fingimento de conquista e evolução.

Otro, espetáculo dirigido pelo inquieto Enrique Diaz, transita, entre a salvação e aceitação, a necessidade da manifestação da tolerância para inclusão e aceitação do Outro, enquanto assume serem Outros todos e qualquer um. Não traz maiores soluções, porque talvez nem mesmo existam para além disso. Mas faz do Outro um verso poético inventivo profundo e paradoxalmente superficial (tanto quanto as são quaisquer tentativas de reconhecer profundamente um ser em outro). Resenha sobre a impossibilidade de melhor definição dessa relação, enquanto sugere haver na poética do reconhecimento certa importância pela própria busca, mais do que pelas respostas, em um estado de alienação, contaminação e sublimação da própria subjetividade.

Há aqui e ali. Palco e vida. A vida como palco. O palco como vida em processo. E o processo como palco da própria vida. E o mero viver sem muito mais do que o próprio viver. Há o Outro e nós, ou eu ou ele como eu, e nós como nós e Outros. Há o público e os atores. E os personagens. E os personagens atores. E o público personagem. Atores públicos de seus públicos. E há a essência e a beleza do próprio estado de haver. E porque há, aí está o sentido pleno de perceber. As inquietações de Enrique Diaz me encantam porque me incomodam. O resto é teatro. Desse que não se encontra todo dia.

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