Antro Particular

19 agosto 2007

A CULTURA ESQUECIDA

Quando os bancos e companhias de ônibus entram em greve, todos os noticiários correm para produzir matérias, estatísticas e entrevistas. Ou os professores, empresas responsáveis pela limpeza pública, funcionários do judiciário e tantos outros. Uma questão, porém: você sabia que este ano o Ministério da Cultura esteve em greve e que esta acabara apenas agora?

Não vou discutir as exigências e motivos em questão. Abordo o assunto por outro interesse.

É óbvio que muitos dos exemplos citados à cima agem diretamente sobre nossas vidas. São serviços necessários para a manutenção da ordem e do cotidiano.

A Cultura, por sua vez, é tratada como supérfluo, não-essencial. Ir ao cinema, teatro, exposições, shows, comprar livros são decisões momentâneas quase sempre surgidas como distrações eventuais.

Entender a Cultura como mero passatempo é abstrair seu valor formador e transformador e retirar sua importância sobre o rascunho de uma sociedade. Através da Cultura, e sobretudo em sua manifestação pela Arte, alguns preceitos podem ser questionados e compreendidos por outras lentes. A moral, a ciência e o pensamento cartesiano passam a se confrontarem, por exemplo, com a ética, a filosofia e o pensamento complexo.

Em um encontro recente, André Martinez demonstrara quão importante é a produção simbólica, pela qual, na construção do repertório pessoal situamo-nos simultaneamente por distinção e pertencimento ao social.

Limitarmos nossa convivência com a Cultura ao espaço de lazer é esfacelarmos a capacidade de abrangermos nosso repertório simbólico, diminuindo assim a percepção sobre nossa individualidade e a comunidade na qual estamos inseridos. Entre o indivíduo e a sociedade, situam-se aspectos mais específicos tais como a cidadania, quando aprendemos a lidar com os limites que contribuirão para maior autonomia e capacidade de discernimento. Para Martinez, a realidade e o poder situam-se na transposição dos valores entre o discernimento autônomo e a constituição dos valores organizacionais sociais.

Mas de alguma maneira a Cultura continua estanque das nossas opções de formação, a ponto de não notarmos sua paralisia durante meses.

Muitos são os projetos que não mais acontecerão por perdas de prazos e verbas. Muitos os artistas que deixarão de atuar na construção de novas narrativas simbólicas.

Quem perde com a greve no MinC somos nós. Deixamos de abranger nosso repertório simbólico, por muito submetido aos mesmos códigos, uma vez que os projetos capacitados para suportar uma crise quase sempre se favorecem de seus apelos comerciais. E não há na criação comercial a busca pelo desdizer, pelo antagonizar pensamentos, pelo desconstruir padrões.

Políticas culturais são mais amplas do que organizações de eventos ou distribuições de mecanismos fomentadores. Há nesses tópicos certa importância, sim. Mas é preciso ir além da percepção comum que o acesso ao bem cultural soluciona a falta de Cultura.

É preciso disponibilizar mecanismos de acesso a bens simbólicos e a criação de novos repertórios. Determinar valores democráticos à dialética entre opostos. Maximixar a capacidade de formar discursos e percepções.

Contudo, como sempre me diz Gerald Thomas, falta Cultura nessa falta de cultura!

1 Comments:

  • Seu artigo está excelente. Tratou de maneira digna a cultura sem denegrir a imagem dos servidores da cultura.
    Eu apenas acrescentaria:


    "A Cultura, por sua vez, é tratada como supérfluo, não-essencial. Ir ao cinema, teatro, exposições, shows, comprar livros são decisões momentâneas quase sempre surgidas como distrações eventuais, PARA QUEM PODE.

    Att.

    Angélica

    By Anonymous Angélica, at 7:35 PM  

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