Antro Particular

19 junho 2007

O NOVO CAETANO DE SEMPRE

Cê. Novo disco e show de Caetano Veloso surgem como respiro na produção mais recente do compositor. E sem Jacques Morelenbaum, a quem Caetano reverencia com justiça confidenciando ao público ser ele, de fato, o responsável por sua perda do medo da música. Sai o arranjador de tantos trabalhos. Entram a renovação da linguagem na presença de Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e piano rhodes) e Marcelo Callado (bateria). E junto, o frescor de juventude que há muito não se via em seu trabalho.

Se Tom Zé cobra abertamente essa jovialidade na alma das composições de Caetano, Cê responde de maneira inesperada. Com as doze músicas inéditas, o show transita ainda por outras épocas, rebatizando as melodias em acordes sugestivos de rock e minimalismo dissonante.

Há nesse novo/aquele Caetano o retorno ao experimento no sentido mais divertido do termo. Nas frases encaixadas sob os acordes contrastantes, na correta jaqueta jeans, nos cabelos grisalhos circundando os óculos enquanto a saliva estala falas sobre tudo e todos.

Se não é unanimidade, isso é ótimo. O desagradar fez parte da essência de sua arte, parcela suprimida nos trabalhos mais recentes no encontro com o mercado. Hoje, e ainda que bem comportado, Cê recupera nosso desejo em ser provocado. Nos shows em São Paulo, a cara surpresa da platéia com seus copos de uísques ou cerveja nas mãos, divida entre jovens apaixonados por rock descobridores de Caetano, e fãs do mito lutando pelo entendimento do que ouvem. A face surpreendida à espera do reconhecível se confrontava à inspiração do quarteto. E isso por si só já era um show à parte.

Gosto de Caetano assim, explícito, arriscado. Não me importo com desacertos desde que provenientes de ousadias.

Enquanto se discute se Cê é suficiente para acrescer algo ao rock e o taxam de responsável por quase todas as mazelas da indústria musical, a crítica especializada se abstém de aprofundar sobre a falência dos novos artistas mais voltados a projetos instantâneos de reconhecimento do que ao surgimento de linguagens pessoais.

Não sou crítico de música. Mas sei que sou parte de uma geração construída também pela rebeldia lúdica da musicalidade tropicalista. Da quebra de padrões elitistas retornadas à cena burguesa como relíquias intelectuais de um passado esquecido. É fácil ser tropicalista de mp3, carro blindado e coleções particulares...

Ouço a discografia de Caetano e percebo estar na poesia barroca da palavra o delírio da reconciliação de um país plural. E cada dia o redescubro, rediscuto-o mais.

É preciso desgostar de Caetano. Enfrentar sua obra e sua retórica. Ir de encontro ao espelho qual expõe nossas incoerências e proteções. Obrigar-se ao enfrentamento estético, filosófico. E nesse jogo defensivo do ataque mútuo se permitir aprisionar em devaneio para perceber que a música brasileira deve muito a seus delírios.

É preciso desrespeitar os gênios para o surgimento das verdadeiras reverências. Sem manipulações do momento e do correto.

Caetano é um artista, e só. Bom, ruim, melhor, pior, criativo, repetitivo. Importa? Em uma época sem pensamento, aceitar ouvir passa a ser um grande desafio. E Caetano é desses que sabe a importância do dizer.

4 Comments:

  • belo texto. berlam assinaria embaixo, hehe.... abraço!

    By Anonymous pedro, at 5:14 PM  

  • O maior mérito de Caetano é conseguir fazer as pessoas seguirem falando dele. É um desbravador de imaginários e sabe ocupar essas terras como niguém. Há que tirar o chapéu.

    By Anonymous José Gatto, at 10:09 AM  

  • Pedro, abraços ao dois! Lembrei-me do Berlam enquanto escrevia...

    By Blogger Ruy Filho, at 10:47 AM  

  • ...por alguma razão ele é um dos maiores intelectuais do planeta terra da atualidade...mais um baiano.
    saudades
    Pancho

    By Anonymous pancho, at 10:51 PM  

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