Antro Particular

06 dezembro 2005

DENISE STOKLOS: Faço, Desfaço, Refaço: a submissão da narrativa a construção da personagem histórica

Postado na hospedagem anterior do blog na quarta-feira, 8 de junho de 2005
02:21:36


My name is Louise Josephine Bourgeois.
I was born 24 December 1911, in Paris.
All my work in the past fifty years, all my subjects,
have found their inspiration in my childhood.

My childhood has necer lost its magic,
it has never lost its mystery,
and it has never lost its drama.

Louise Bourgeois


O novo trabalho de Denise Stoklos a aproxima de um dos nomes mais importantes das artes contemporâneas: Louise Bourgeois. Nos encontros na casa de Louise, como descreve no programa da peça, Denise conquista a possibilidade de encenar um texto escrito pela escultora. Não bastasse, a cenografia é elaborada por instalações criadas especialmente para a montagem traduzindo ao público leigo o repertório sígnico de Louise: escada de ferro, o espelho gigantesco oval, a célula gradeada com duas entradas onde se encontram a escultura em tecido, bancos de madeira, um painel gótico, outro grande espelho como que observando e devolvendo à própria Denise toda sua criação no palco.

A proposta por construir um trabalho associado à artista plástica torna Denise uma performer curiosa, afinal, também Louise fizera suas performances pelas ruas de Paris. No entanto, Denise opta por continuar no palco e manter a interpretação que lhe transformou em ícone das novas gerações, a teatralização da mímica atribuindo ao corpo a mesma importância interpretativa que o texto e voz.

Apesar do texto de Louise Bourgeois ter lá seu interesse - mais histórico do que estilístico propriamente -, a peça se esvai pouco a pouco em sucessões de cenas por vezes repetitivas e alongadas. Para os que não conhecem o trabalho de Louise ficam os discursos explicativos das suas razões, as descrições de seus sentimentos e revoltas, mais parecendo verborragia juvenil e nem tanto retórica sobre a arte como manifestação da busca pela compreensão de si mesmo. O trabalho de Louise se fragiliza subjugado a uma leitura rasa.

Louise está longe de ser um aglomerado de complexos sobre o pai e a mãe. Que há certo froidianismo no trabalho da artista isso é evidente nestas últimas décadas de sua produção. Mas só? E junto a isso a revolta pela sociedade burguesa-católica? Parece-me que mesmo Louise fora pouco em si mesma quando escrevera o texto uma vez que seu trabalho abrange outras camadas que envolvem a percepção física e emotiva, expressividade social, representatividade, desfiguração dos sígnos primários, silêncios, respirações. Mas não cabe ao artista de vanguarda o acerto e total controle de seu discurso e sim a tentativa do diálogo pela ação. Louise criou um vocabulário próprio de significados nas suas instalações e esculturas. Em texto, elabora um divertido diário irregular de suas lembranças. Complica aí: aos ouvidos não se chega mais do que lembranças. Ainda que interessante, o texto está longe de ser revolucionário tanto quanto suas obras espalhadas pelos mais diversos e importantes museus.

Fui assistir Faço, Desfaço, Refaço na expectativa de ser surpreendido. Não fui. Denise Stoklos não se apropria do universo de Louise se não pelas palavras e cenografia. Continuam lá os gestos, as expressões faciais, os passos estudados com a técnica precisa mas já exaurida de impacto. E não se dá oportunidade de adentrar em Louise para parir um encontro cênico-plástico que poderia ser esplendoroso. Novamente o que se assiste é a apropriação temática para a construção cênica tradicional e não uma inserção conceitual do material base para a elaboração de outro conceito cênico. O teatro de Denise Stoklos se projeta igual a sua própria trajetória.

Se hoje o teatro vive a síndrome do teatro-ciência por espetáculos que se rendem a tentativa ínfima de explicar ou narrar fatos científicos, Denise inaugura o teatro-artes visuais. E a história se repete no vazio visto em Quebrando Códigos, Almoço na Casa do Senhor Ludwig, entre tantos outros. O tom narrativo do diário pessoal, o olhar sobre a personagem histórica, a valorização do homem para a construção de mitos contemporâneos. Os espetáculos que buscam tratar temas ligados às ciências e as filosofias geralmente são percepções comerciais e mercadológicas. A investigação aprofundada das teorias e pensamentos enquanto proposições é tida por conteúdos irrelevantes. Denise não chega a esse desperdício. Vê-se uma busca primeira em tentar explicitar o interior de Louise como intuito de se aproximar da artista. Pena que o mesmo pensamento não se expande a seu próprio corpo, sua voz, o palco, a luz, o figurino. Havia aí uma grande oportunidade de se lançar ao desconhecido.

No todo, o espetáculo consegue atingir o público de alguma maneira, seja pela frase de inflexões revolucionarias juvenis, seja pelo humor, seja pelo drama do sofrimento auto-analítico. De qualquer forma, Faço, Desfaço, Refaço, permite um primeiro encontro com Louise Bourgeois e àqueles que a conhecem um feliz momento final, quando, após Denise telefonar para Louise, oferece-nos a possibilidade rara de aplaudirmos ambas: Denise pela coragem de enfrentar esse monstro da arte contemporânea; Louise, bom, por ser Louise...

2 Comments:

  • Escrevemos quase a mesma coisa. Mandei o meu ontem, e sai na quinta. Confira.

    SC

    enviado em 8/6/2005 17:33:00

    By Anonymous SÉRGIO COELHO - comentário recuperado da hospedagem anterior, at 1:05 AM  

  • Pedagogia da Autonomia
    DENISE STOKLOS

    Pedagogia da Autonomia", livro de Paulo Freire, foi o mais importante para mim porque abriu um enfoque da responsabilidade do cidadão, cívica e poética, com seu universo. Ele deixa claro e dá uma dimensão da criatividade que é deixada ao indivíduo para construir seu mundo, sua convivência. Ele dá ao indivíduo a qualidade de ser o criador do lugar onde habita, convive. Com isso, vemos as duas mãos dessa situação: nos responsabiliza por tudo o que está acontecendo -mesmo as coisas com as quais não concordamos, cobrando ação contra elas - e também por criar condições em que as situações inaceitáveis se transformem. Ele dá ao indivíduo a dimensão poética da emoção.

    Isso me leva a Henry David Thoreau e "A Desobediência Civil", que foi também um pedagogo e o primeiro ecologista. Essas duas obras me remetem a Milton Santos, com sua literatura de geografia humana. Ele dizia que vivemos não uma época de comunicação, mas de informação, uma vez que comunicação é compartilhar emoção, e isso nós não fazemos. Paulo Freire costumava dizer: "Gosto de ser gente, porque com as minhas mãos eu posso mudar o mundo". A somatória disso tudo dá um sinônimo de Clarice Lispector na sua profundidade de olhar o ser nas suas diversas camadas de movimentação.

    A obra
    "Pedagogia da Autonomia", de Paulo Freire. 148 págs., R$ 9,00. Ed. Paz e Terra (tel. 0/xx/11/3337-8399).

    enviado em 8/6/2005 11:08:00

    By Anonymous CÁSSIO - comentário recuperado da hospedagem anterior, at 1:06 AM  

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