Antro Particular

06 dezembro 2005

FOI CARMEM MIRANDA: o mito destituído da fantasia

Postado na hospedagem anterior do blog na terça-feira, 21 de junho de 2005
15:31:02


O comentário enviado por João Roberto de Souza no meu texto sobre Antunes Filho - leiam, é sempre importante mais de um lado -, traz claramente todos os motivos porque vejo o espetáculo Foi Carmem Miranda como uma obra engenhosa.

João condena a construção de uma Carmem Miranda que entende por estereotipada onde se mostrou apenas os balangandãs. Bom, estereótipo maior seria trazer aos palcos a alegria, a Carmem Miranda pop star, a representação de uma cultura de bananas. Antunes fugiu de tudo isso para encontrar uma outra, a pessoa por dentro dos chapéus, das vestimentas coloridas. Quando paralisa a cena, enquanto as atrizes encaram o microfone antigo, ao fundo da voz de Carmem cantando, e ao término explode em aplauso pela futura artista, (neste instante, criança), elabora um jogo complexo de personalidades, pois ao mesmo tempo desassocia Carmem-pessoa e Carmem-artista. A menina é repreendida pelas tias, mas a artista está lá, em sua alma, em seu comportamento infantil, no brilho do olhar de quem encontrara seu destino.

Imaginei e assisti o quanto o público estava se incomodando por não ver sobre o palco uma atriz cantando e dançando imitando à perfeição Carmem Miranda. Perdoem-me os críticos que não entenderam, mas isso seria um porre! Pra quem gosta desse ufanismo nacionalista, esse tom você encontra no espetáculo novo de Carlinhos de Jesus, Isto é Brasil. Carmem foi mais do que isso, ela existia antes das tevês e cinemas, das rádios. Antunes cria um drama onde a transformação em artista gera conflitos e sofrimento, e que, quando chega ao seu destino, expõe em pôster, representada em mídia como afirmação de seu reconhecimento.

Sempre me pergunto por que as pessoas não olham para Carmem como se fosse uma pessoa de verdade, com dores, insônias, fome, mal-humores? A criação dos mitos modernos faz com que os indivíduos eleitos pela mídia e público sejam apenas o que se vê quando vendidos. Há mais aí. E o indivíduo mitificado quase sempre é solitário e triste. Como Elvis, como Morris, como Michael Jackson, como a princesa Diana (pra ficar entre os mais óbvios)... Tentem encontrar algum! O sucesso em seu máximo de superlativo não determina alegria e sim o abandono de si mesmo para a projeção eterna do personagem qual representa frente ao público. Não vejo felicidade nisso. Nem Antunes viu em Carmem.

Outro aspecto, mas que me poupo discutir, é quanto ao referido sucesso em Hollywood. Perdoe-me, mas um artista não é quem é só por ter passado pelo crivo e aceitação de Hollywood. Ou a Fernanda Montenegro só se tornou a maior atriz brasileira porque foi ao Oscar?

E não me sinto representado com balangandãs, fitas coloridas, chapéus com bananas. Aonde existe isso na nossa cultura, senão no carnaval milionário de hoje, compra para o espetáculo do Brasil exótico pelas televisões de todo o mundo? No nordeste? Não, lá as danças originais são folclóricas, misturam as raízes indígenas e africanas, ritmos quebrados, cantigas em versos populares e repetidos quase sempre sobre influência de rituais católicos. No sul? Acho também que não, chegaremos ao mesmo início, mesclando culturas diversas da Europa ocidental... Ora fitas, chapéus com enfeites, gestos caricatos dramatizados... portugueses, com certeza! Carmem Miranda vende ao primeiro mundo, até hoje, a construção de um Brasil que não o é de fato. Um Brasil colonizado pela cultura de qual provem. Se o era, não sei, não vive àquela época, mas definitivamente não é assim que o reconheço. Uma viagem aos sertões, aos litorais, aos interiores e desafio que Carmem seja encontrada.

Carmem Miranda foi sem dúvida uma grande artista. A seu modo soube conquistar o mundo e conduzir a alegria e diversão a todos. Ela é inesquecível, certamente. Mas por favor, não esqueçamos da menina portuguesa sonhadora, com medos, da alma presa em corpo velado pela fantasia. Existe alguém por baixo dos tecidos. Antunes Filho rasgou-lhe as máscaras e é essa garota esquecida que nos oferece em cena. Incomoda? Evidentemente que sim. Seria demais assumirmos que conduzimos a menina ao afastamento de sua alma pelo mero prazer de podermos, através de seu sucesso, alcançarmos o nosso. Como fazemos com Pelé, como fazíamos com Senna. Impomos aos nossos ídolos nosso desejo de vitória, pois não nos consideramos vitoriosos, afinal, não temos o som do aplauso, eles, sim. E no mundo moderno, duas são as drogas: aplauso e dinheiro.

Escolhas são partes da construção de qualquer indivíduo. Prefiro ficar com a pessoa, descobrir quem é que existe por baixo das fantasias e empresta a ela seus valores. Muitos ainda preferem a artista, o luxo, o som das palmas, a maquiagem produzida sem a preocupação do indivíduo primeiro. Íntimo x representação. Tudo bem, o Brasil é um pouco dos dois mesmo.

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