Antro Particular

07 dezembro 2005

KAZAHANA: a dança aprisionada pela estética

Postado na hospedagem anteior do blog na quinta-feira, 4 de agosto de 2005
04:47:22

O espetáculo de dança Kazahana, apresentado no último final-de-semana no Teatro Alfa, pela Cia. Karas, concentra-se nas duas linguagens presentes na formação do coreógrafo e artista plástico Saburo Teshigawara e se perde na intersecção do possível. Plasticamente bem resolvida, a espacialidade do cubo feito em elásticos, em linhas paralelas verticais, adquire movimento quanto interagido e cores próprias (branco, azul, vermelho) compondo uma cenografia agradável à composição coreográfica criada.

Contudo, a exploração espacial se esgota rapidamente, mesmo com as intervenções de uma iluminação precisa e criativa. Aos que assistem ao espetáculo, a plasticidade inicial perde interesse, restando apenas a sonorização criada por ruídos, músicas desconstruídas e um específico momento de música eletroacústica, quando os dançarinos, estáticos, sentados no palco, dão continuidade à perspectiva do teatro, oferecendo-nos o som circulante e variável como atributo de suas subjetividades. Talvez o momento mais acertado do espetáculo.

Já a coreografia tem explicitamente a intenção de construir uma narrativa de movimentos. Não a narração de um fato ou pensamento, apenas a continuidade do gesto entre diversos dançarinos, ainda que não de forma linear. Trabalhando os corpos ora como campos amplos ora mínimos, suaves e ágeis ou restritos e duros, Saburo propõe a compreensão do gesto-fala por sua repetição. E o espetáculo, já sem a grandiosidade do primeiro impacto visual, torna-se cansativo e longo.

O que fica claro na montagem da Cia. Karas é a busca em associar potencialmente a dança e a estética. Mas pelas mãos de Saburo, a estética evidencia a criação tornando os dançarinos meros coadjuvantes de um espetáculo que se propõe visual.

Essa discussão não é nova, nem única. Este ano ainda assistimos em São Paulo o Momix, com a mesma pesquisa. O que faltou a Saburo foi compreender que a estética pode ser sim a sustentabilidade de uma criação, desde que os outros componentes estejam presentes na base conceitual. É o que funciona nos espetáculos do Momix, coreografias, por vezes nem tão originais, condicionadas a uma estética precisa dentro de um conceito prévio capaz de reger todos os fundamentos dos espetáculos e, assim, nos conduzir pela estética a um momento único.

Saburo é mais interessante que o Momix. Mais ousado, criativo. Plasticamente mais refinado. Basta agora converter sua capacidade estética em percepção coreográfica. Por enquanto, o que se vê, é um excelente ambiente para se escutar interessantes criações sonoras contemporâneas.

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