Antro Particular

21 agosto 2007

Workshop Gerald Thomas: reflexão 1

Por volta de 200 inscrições chegaram para a participação do workshop ministrado por Gerald Thomas, em São Paulo, no SESC Consolação, semanas atrás. A impossibilidade de agregar a todos me fez pensar sobre a importância e profundidade das discussões surgidas dia-a-dia. Portanto, a partir de hoje, blogo um pequeno resumo dos temas abordados por Gerald (em laranja), seguido por uma reflexão minha (em preto). Espero assim, de alguma maneira, levar a todos os que não puderam estar presentes ao menos as inquietações surgidas e tão necessárias.
RUY FILHO
DIA 1
SOBRE A FORMAÇÃO DO ARTISTA

Traduzir a formação de um artista por técnicas acadêmicas e compreendê-la como suficiente é comum principalmente entre os mais jovens. É preciso dialogar com o mundo em que se vive. Por que o Oriente Médio é hoje o epicentro do mundo? Quais são as causas de guerras como Coréia, Vietnã, Kosovo, Afeganistão, Iraque...? Quem eram os principais nomes da Guerra Fria? Como se posicionou a ONU nas últimas décadas? O que ocorre com a Esquerda que chegara ao poder na América Latina? O artista é aquele que dialoga com a história e com o agora, e nesse encontro se firma como pensador político, como filósofo reflexivamente inquieto e incrédulo das verdades absolutas.
(a partir de reflexões de GT)


Freqüentemente palestro e discuto sobre a Política como algo maior há ser entendido, principalmente pelos artistas. Foi assim para uma platéia curiosa na UFSCAR, ano passado, formada por estudantes de matemática, física, química, direito e, perdidos lá no meio, um ou outro de humanas e artes.

Sem me alongar em devaneios, é preciso compreender a Política em seus aspectos Biopolíticos, quando a economia, o social, a política e a cultura não se distinguem ou fragmentam em ciências estanques.

Segundo Michel Foucault, todas as tomadas de decisão são sempre circunstanciais, exigindo, assim, a compreensão dos fatos por seus aspectos biopolíticos e não meramente unidirecionados por um ou outro contexto. E é nessa relação de sobrevivência, quando a circunstância se define frente às situações extremas, que a Política surge em toda sua potencialidade.

Para Slavo Zizek, o posicionamento político determina exceções e precedentes de conduta. No entanto, o resíduo constante transparece a impossibilidade de sistematização de um comportamento e faz com que o reconhecível seja, no fim, o próprio sujeito, ou para usar as palavras de Giorgio Agamben, “a vida nua”.

Não é à toa o nomear de 'Obra Engajada' quando se busca definir uma ação artística cujo conceito parta de preceitos ideológicos. A problemática situa-se exatamente no próprio engajamento, pois a definição de uma doutrina política determina ao trabalho discursos voltados ao preenchimento de uma proposta fechada em si mesma, sem permissão ao público de descobertas próprias, apenas a concordância ou não com os valores defendidos.

Entender biopoliticamente a função do artista é abstrair-lhe os discursos ideológicos. Gerar no âmbito criativo mecanismos que flertem com a substância residual. Do contrário estaremos mais voltados a criações partidárias do que políticas em si.

É preciso ir além. E a maneira mais livremente dialética de discursar ao público se dá na permissão circunstancial da leitura de um trabalho.

A estética de uma obra contém em si mesma o discurso qual se quer tratar. Não é preciso figurá-lo. O não reconhecimento de um desenho, a dúvida sobre uma determinada cor, a fuga de padrões de composição, são exemplos de como uma obra pode abordar a cognição do receptor e obrigá-lo a estabelecer confrontos e escolhas com suas próprias imagens. E entendendo que o não-reconhecimento discursivo, advindo da escolha confrontada, leva a paradigmas de leituras e auto-avaliações, conduzindo o sujeito a situações extremas de como se localizar sobre os aspectos apresentados, a estética surge como eficaz instrumento biopolítico sobre o homem.

A história, os fatos, o passado e o presente são fundamentais para a formação do artista, sim, pois equalizam o tempo com a responsabilidade sobre a compreensão e previsão do futuro. Mas é preciso entender que não basta o representar dos fatos em suas características históricas para que seja constituído um mecanismo de ativação dos valores políticos em si. É preciso oferecer ao espectador a capacidade de criação de seus próprios argumentos. De outro modo estaremos apenas contando estórias ou fabricando modelos de padronização de pensamentos. Ainda que na melhor da intenções.

4 Comments:

  • Salve Ruy, perfeito o texto. abraço

    By Anonymous Cesar Ribeiro, at 7:09 PM  

  • Há uma crise na arte de hoje,muito novidade re-quentada..mas há uma fumaça no horizonte

    By Anonymous ediney, at 10:00 AM  

  • Infelizmente não fiquei sabendo dessa SUPER oportunidade com o Gerald e com vc Ruy... mas agradeço pelo o q vc fez(no seu blog) pois pelo menos assim posso acompanhar ..sinto muito a sua falta tentei te ligar para lhe pedir permissão para assistir ao ensaio da cia teatro de janela mas ñ o encontrei bjus espero noticias suas qdo vc tiver alg tempo Sabrina

    By Anonymous Sabrina Denobile, at 5:21 PM  

  • e o resto?
    Contrera

    By Anonymous Anônimo, at 6:34 PM  

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